segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Inscrição em aramaico no Santo Sudário
seria anterior ao ano 70 d.C.

Enterro de Cristo. Spencer Collection Ms 151, f155v
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O cientista francês Thierry Castex descobriu recentemente mais uma inscrição no Santo Sudário, informou o diário “La Stampa”, o mais importante de Turim, cidade onde se encontra a relíquia. A escrita está em aramaico, a língua dos primeiríssimos cristãos.

Não é novo que se descobram inscrições do I século no Sudário. Em 1978, um professor de latim da Universidade Católica de Milão detectou algumas delas pela primeira vez.

Em 1989, o professor Messina, especializado em hebraísmo identificou outra inscrição que dizia “O rei dos Judeus”.

Os novos caracteres agora achados suscitaram polêmica. E isso é freqüente no ambiente científico. Dentro dos limites da objetividade é benéfico, pois o novo achado fica submetido à crítica adversa. Se resiste, fica consolidado.

A historiadora do Arquivo Secreto do Vaticano Barbara Frale foi convocada para analisar a nova descoberta. Suspeitava-se ser uma inscrição feita pelos templários no tempo em que eles custodiavam o Santo Sudário.

Mas Frale descartou a hipótese dos templários. Frale é especialista no estudo dessa Ordem de Cavalaria hoje extinta.

Jesus na sepultura. Via Sacra de Lourdes
O fato dos caracteres serem aramaicos nos leva direto aos tempos de Nosso Senhor, explicou Frale, pois “depois do ano 70 não se falava mais aramaico nas comunidades cristãs. E o próprio São Paulo escrevia em grego”.

“Há muitos indícios, eu diria uma infinidade, que apontam no sentido de relacionar o Santo Sudário com os primeiros trinta anos da era cristã”, acrescentou.

Interrogada se achava que a escrita é anterior ao ano 70, respondeu: “tudo o que sabemos do mundo antigo nos obriga a formular essa hipótese”.

Numa entrevista difundida pela Radio Vaticana, a historiadora disse que segundo o cientista Thierry Castex, responsável pelo achado, pode se ler claramente a palavra “encontrado” e há uma palavra junto, que ainda tenta se decifrar, mas que pode significar “temos encontrado”.

A frase pode ser aproximada a expressão do Evangelho de São Lucas, onde o evangelista refere o motivo pelo qual Jesus Cristo foi levado diante do governador romano.

Enterro de Cristo. Petites Heures de Jean de Berry
São Lucas (23, 2) diz: “Temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei.”

Em entrevista ao diário “La Stampa”, o filólogo italiano Luciano Canfora tentou desclassificar o achado de Castex e a interpretação de Frale.

Porém, Canfora apelou para uma retórica cáustica, num nível apenas pessoal, sem fornecer qualquer argumento científico.

O entrevistador do jornal manifestou no fim o vazio que lhe produziam os comentários ácidos e ocos do Prof. Canfora.

Em mais uma entrevista a “La Stampa”, a historiadora Frale apontou a ausência de argumentos de Canfora, e relembrou um recente achado do especialista no Sudário Raymond N. Rogers.

Rogers trabalha no laboratório de Los Alamos (da Universidade da Califórnia), e submeteu fibras do Santo Sudário a testes específicos para o linho (o tecido original é linho puro).

Rogers constatou então que as fibras se comportavam do mesmo modo que amostras recolhidas no sitio arqueológico de Qumran, perto do Mar Morto. Portanto, de modo muito diferente dos tecidos medievais.

Qumran é um dos sítios arqueológicos mais ricos e interessantes para o período de transição do Antigo Testamento para o Novo.

Enterro de Nosso Senhor. Jaime Huguet
Os achados lá atingem um número e uma variedade estonteante. Há muitos cientistas debruçados em intensos e custosos estudos sobre os objetos de Qumran.

Frale anunciou ainda que as misteriosas escritas do Sudário serão reproduzidas por inteiro num livro de sua lavra que será publicado pela editora Il Mulino, em novembro, na Itália.