segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ruínas do Hospital de Jerusalém – 2
Impulso para o desenvolvimento dos hospitais no mundo

A Grande Sala dos Pobres, do Hospital (Hôtel-Dieu) de Beaune
nos dá uma ideia de como pode ter sido o Hospital de Jerusalém

continuação do post anterior

O Hospital segundo testemunhos de época

A Ordem que criou e deu todo seu brilho ao Hospital foi fundada durante a Primeira Cruzada pelo bem-aventurado Pierre-Gérard de Martigues, mais conhecido como Gerardo Thom (Tum, Tune, Tenque, segundo as grafias).

Ele foi reconhecido como fundador em bula de 1113 do Papa Pasqual II, confirmada pelo Papa Calixto II pouco após a morte do Beato em 1120.

O historiador americano Thomas Woods cita que João de Würzburg, sacerdote alemão, ficou pasmo com o que viu no Hospital de São João quando de sua romaria a Jerusalém.

“A casa – escreveu ele – alimenta tantos indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão grande número de esmolas aos pobres, seja aos que chegam até a porta, seja as que ficam do lado de fora, que certamente o total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos administradores e dispensários da casa” (Thomas E. Woods, How the Catholic Church built Western Civilization, Regnery Publishing Inc, Washingtonn 2005, p. 178. Em português: Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, Quadrante, SP, 2008).



Hospital medieval de Beaune: figuras de cera recriam o ambiente
Teodorico de Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque, “indo através do palácio, nós não podemos de maneira alguma fazer uma ideia do número de pessoas que ali se recuperam. Vimos um milhar de leitos. Nenhum rei ou tirano seria suficientemente poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas alimentadas nessa casa” (Woods, p. 178).

“Nossos senhores, os pobres”

O sucessor do Beato Gerardo, Raymond du Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, escreveu o Decreto, ou Regra, da Ordem. Nele incita os monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heroicos por “nossos senhores, os pobres”.

Pois a espiritualidade da Ordem de São João via no doente um “pobre de Cristo” ou um “santo Pobre”, e isto antes mesmo de Deus enviar o grande São Francisco de Assis.

“Quando os pobres chegam – diz o artigo 16 do decreto de du Puy – devem ser assim acolhidos: que recebam o Santo Sacramento, após terem confessado primeiro seus pecados ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um Senhor”.

O decreto de du Puy, que leva o titulo de “Como Nossos Senhores os doentes devem ser recebidos e servidos”, virou um marco no desenvolvimento dos hospitais católicos (Woods, pp. 178-179).

O Hospital de Jerusalém inspirou uma rede de hospitais similares na Europa. Sua ordem interna, sua qualidade no atendimento e seu espírito de caridade fizeram dele o modelo das instituições que à sua imitação passaram a se chamar também “hospital”.

De retorno da Terra Santa, os peregrinos contavam na Europa a maravilha do Hospital de Jerusalém. Não poucos deles eram nobres, ricos comerciantes e até reis, e passaram a financiar instituições que imitassem o modelo de São João de Jerusalém.

Cozinha do Hôtel-Dieu de Beaune. O Hospital de Jerusalém
alimentava milhares de pessoas diariamente de modo gratuito
Em 1131, o rei Alfonso de Aragão legou um terço de seu reino aos Cavaleiros Hospitalares.

No século XII, os novos hospitais da Europa pareciam, do ponto de vista da eficiência e organização, mais com hospitais modernos do que com os antigos hospícios – descontadas as limitações materiais, técnicas e de conhecimentos da época.

No século XIII, os Hospitalários administravam pelo menos 20 outros hospitais e leprosários em território europeu.

Mas o de São João de Jerusalém estava sempre na frente pelo profissionalismo, organização e disciplina.

A hospitalidade de que os beneditinos davam exemplos aparentemente insuperáveis foi de algum modo sobrepujada pela dos monges-cavaleiros de São João de Jerusalém.

Cada dia o doente devia ser visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas refeições. Os responsáveis não podiam comer antes que os pacientes. Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e garantia vestimentas e roupa de cama limpas – acrescenta o Prof. Woods. PARA VER O CURSO DE AULAS LEGENDADAS EM PORTUGUÊS DO PROF. WOODS, CLIQUE AQUI.

Ocaso do Hospital de Jerusalém e do sistema hospitalar medieval

Após o desaparecimento do Hospital de Jerusalém pela incúria maometana, o rei protestante Henrique VIII fechou na Europa os mosteiros e confiscou suas propriedades. Desapareceu então a caridade para com os necessitados.

Ruínas do Hospital de Jerusalém
A redistribuição das terras abaciais trouxe “a ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos camponeses, a quebra de pequenas comunidades que eram seu mundo, e a verdadeira miséria passou a ser seu futuro” (Woods, p. 182).

Idêntico ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847, mais de meio século depois, a França tinha 47% hospitais a menos do que no ano do confisco (Woods, pp. 185-186).

Hoje os hospitais em mãos do Estado – por vezes mal cuidados – ou dos particulares – por vezes caríssimos – ainda usufruem do impulso dado pelo Hospital de São João de Jerusalém, impregnado de caridade cristã.

A descoberta das ruínas do Hospital dos Cruzados é como o achado de uma relíquia da História da Igreja. E da história da ciência médica também.

FIM

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