domingo, 17 de março de 2013

Torre de Babel: as lendas pagãs,
a ciência moderna e a Babel do Anticristo

Uma Torre que atingisse os céus feita sem necessidade de Deus:  um pecado coletivo de revolta. Joos De Momper o Jovem (1564–1635)
Uma Torre que atingisse os céus feita sem necessidade de Deus:
um pecado coletivo de revolta. Joos De Momper o Jovem (1564–1635)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




continuação do post anterior: O que diz a ciência sobre a Torre de Babel? Existiu? Por que ruiu? Sobrou algo? Onde?


Reminiscências em lendas pagãs

Referências à Torre de Babel perduraram nos mais diversos povos espalhados na Terra, testemunhando sua existência e o fato de ter sido a causa da confusão das línguas.

O mito de Enmerkar, dos sumérios (povo já desaparecido) fala da construção de um imenso zigurat (torre-templo) na origem da diversificação das línguas.

O missionário dominicano Frei Diego Durán (1537–1588) recolheu em Xelhua (México) a saga dos gigantes que tentaram construir uma pirâmide para atingir os céus, mas que os deuses destruíram, confundindo a linguagem dos construtores.

O religioso ouviu essa narração de um antigo sacerdote pagão de Cholula, pouco depois da conquista espanhola do México.

O historiador nativo Fernando d'Alva Ixtilxochitl (1565-1648) recolheu a lenda tolteca (América Central) segundo a qual após um grande dilúvio os homens erigiram uma imensa torre que os preservaria de outro dilúvio, porém suas línguas foram confundidas e eles se dispersaram pelas diversas regiões da Terra.

Um mito grego fala que o deus Hermes confundiu as línguas.

Histórias mais ou menos parecidas foram documentadas pelo antropólogo social escocês Sir James George Frazer (1854 – 1941).

Frazer menciona especificamente narrações nesse sentido entre os Wasania de Quênia; no povo Kacha Naga do Assam (Índia); entre os habitantes de Encounter Bay, Austrália; nos Maidu da Califórnia; nos Tlingit da Alaska e nos K'iche' Maya da Guatemala. Também entre os estonianos no Mar Báltico, Europa do Norte; e até na Arizona, EUA.

Que altura teve a Torre?

Em verdade, não se sabe com certeza qual era a altura da Torre no momento da dispersão. Apenas sabemos pela placa de Nabucodonosor que ela não chegou a ser concluída.

As ruínas do zigurat de Choghazanbil podem dar certa ideia da estrutura da Torre de Babel.
As ruínas do zigurat de Choghazanbil podem dar certa ideia da estrutura da Torre de Babel.
O apócrifo Livro dos Jubileus refere-se à Torre da maldição como tendo 5.433 cúbicos e dois palmos de altura (2.484 metros). Isto equivaleria a quatro vezes as estruturas mais altas da história humana.

Veja vídeo
Tal afirmação, porém, é tida como mítica por muitos estudiosos, que custam acreditar que os construtores de tempos tão antigos pudessem edificar uma estrutura de quase 2,5 quilômetros de altura.

Uma fonte extra-canônica, o Terceiro Apocalipse de Baruch, menciona que a 'torre da discórdia' alcançava 463 cúbitos (212 metros de altura).

Ou seja, mais alta do que qualquer outra estrutura do mundo antigo, como a Pirâmide de Quéops, no Egito.

Teria sido a estrutura mais elevada do que qualquer outra na história humana até a Torre Eiffel, montada em 1889. Compreende-se o impacto que produziu na Antiguidade. (Cfr. Wikipedia, Torre de Babel).

São Gregório de Tours (I, 6) escreveu em 594 d.C., citando o historiador Orosius (c. 417), que a Torre possuía “25 portas de cada lado, ou seja, 100 no total. As portas tinham uma dimensão assombrosa e eram de bronze fundido”.


O que diz a ciência moderna?

O Dr. Linn W. Hobbs, professor de Ciência dos Materiais no Massachussets Institute of Technology – MIT, EUA, estudou a resistência dos tijolos usados no tempo da Torre de Babel.

Uso dos tijolos no templo de Ur
Uso dos tijolos no templo de Ur
Segundo as experiências de laboratório no MIT, o tijolo secado ao sol, portanto feito com a técnica comum da época, resistiria no máximo uma estrutura bem feita de 150 metros de altura.

Depois disso, racharia pelo próprio peso e o conjunto desabaria, caso o prédio tivesse forma de torre. Mas, se teve forma de pirâmide poderia ter ido até 450 metros, isto é, quase meio quilômetro.

Mas os construtores da Torre de Babel, segundo diz a Bíblia, conceberam tijolos especiais: “façamos tijolos e cozamo-los no fogo”. (Gen, 11, 3)

O mesmo Prof. Hobbs reproduziu a técnica e testou os tijolos especiais. Estes passavam um dia num forno a 800º C.

Eles suportariam uma construção piramidal de 3.200 metros de altura, dando base para a orgulhosa expressão referida pela Bíblia: “façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus” (Gen, 11, 4)

Assista no vídeo acima aos testes e as consequências tiradas pelo Prof. Linn W. Hobbs.

Burj Dubai,828 metros
Em seu livro “Structures, or why things don't fall down” (Pelican 1978–1984), o professor J.E. Gordon estudou o peso dos tijolos especiais e calculou sua resistência à compressão dos muros levantados.

Suas estimativas apontam que quando a construção – se feita em forma de torre reta – atingisse uma altura de 2,1 km, os tijolos da base não resistiriam e o prédio desmoronaria.

Porém, se tivesse forma piramidal, o prédio poderia atingir altitudes onde faltaria oxigênio para os construtores, antes mesmo de a Torre ruir pelo próprio peso.

Em qualquer caso, o fato de conhecerem técnicas para alcançar essas alturas não prova que chegaram até lá, mas sim que poderiam ter chegado.

As ruínas dos zigurats da Caldeia, as pirâmides do Egito, as próprias pirâmides dos maias e ainda de outros povos, sugerem que a Torre de Babel também teve forma piramidal.

O mais alto prédio hoje levantado é o Burj Khalifa, de 828 metros de altura, em Dubai.

Mas na China está sendo erguido o Sky City One, de 838 metros; há ainda, em fase de planejamento, a Azerbaijan Tower, de 1.050 metros, no sudoeste do Azerbaijão.


Babel e fim do mundo

Aplica-se à Torre de Babel a descrição contida no capítulo 18 do Apocalipse. Mas isto é por analogia.

Essa descrição parece se referir ao orgulho dos homens do fim do mundo e seu desejo de construir uma imensa civilização materialista e laica que desafiaria insolentemente a Deus:

2. Clamou em alta voz, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis,

3. porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo.

4. Ouvi outra voz do céu que dizia: Meu povo, sai de seu meio para que não participes de seus pecados e não tenhas parte nas suas pragas,

Babel, Pieter Brueghel o Jovem (1564–1636), Museo del Prado
Babel, Pieter Brueghel o Jovem (1564–1636), Museo del Prado
5. porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças.

6. Faze com ela o que fez (contigo), e retribui-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro.

7. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos. Pois ela disse no seu coração: Estou no trono como rainha, e não viúva, e nunca conhecerei o luto.

8. Por isso, num só dia virão sobre ela as pragas: morte, pranto, fome. Ela será consumida pelo fogo, porque forte é o Senhor Deus que a condenou.

9. Hão de chorar e lamentar-se por sua causa os reis da terra que com ela se contaminaram e pecaram, quando avistarem a fumaça do seu incêndio.

10. Parados ao longe, de medo de seus tormentos, eles dirão: Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução!

11. Também os negociantes da terra choram e se lamentam a seu respeito, porque já não há ninguém que lhes compre os carregamentos:

12. carregamento de ouro e prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, bem como de toda espécie de madeira odorífera, objetos de marfim e madeira preciosa; de bronze, ferro e mármore;

13. de cinamomo e essência; de aromas, mirra e incenso; de vinho e óleo, de farinha e trigo, de animais de carga, ovelhas, cavalos e carros, escravos e outros homens.

Anjos dispersam os construtores da Torre de Babel,  Bedford Book of Hours
Anjos dispersam os construtores da Torre de Babel,
Bedford Book of Hours
14. Eis que o bom tempo de tuas paixões animalescas se escoou. Toda a magnificência e todo o brilho se apagaram, e jamais serão reencontrados.

15. Os mercadores destas coisas, que delas se enriqueceram, pararão ao longe, de medo de seus tormentos, e hão de chorar e lamentar-se, dizendo:

16. Ai, ai da grande cidade, que se revestia de linho, púrpura e escarlate, toda ornada de ouro, pedras preciosas e pérolas.

17. Num só momento toda essa riqueza foi devastada! Todos os pilotos e todos os navegantes, os marinheiros e todos os que trabalham no mar paravam ao longe

18. e exclamavam, ao ver a fumaça do incêndio: Que havia de comparável a essa grande cidade?

19. E lançavam pó sobre as cabeças, chorando e lamentando-se com estas palavras: Ai, ai da grande cidade, de cuja opulência se enriqueceram todos os que tinham navios no mar. Bastou um momento para ser arrasada!

20. Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa.

21. Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada.

22. Já não se ouvirá mais em ti o som dos citaristas, dos cantores, dos tocadores de flauta, de trombetas. Nem se encontrará em ti artífice algum de qualquer espécie. Não se ouvirá mais em ti o ruído do moinho,

23. não brilhará mais em ti a luz de lâmpada, não se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa; porque teus mercadores eram senhores do mundo, e todas as nações foram seduzidas por teus malefícios.

24. Foi em ti que se encontrou o sangue dos profetas e dos santos, como também de todos aqueles que foram imolados na terra. (Apocalipse, 18)

O texto apocalíptico não se refere à Torre de Babel primeira a não ser num sentido analógico ou simbólico.

A similitude de situações é a que convida os espíritos a ligar o texto do Gênesis ao do Apocalipse.

Muitos empreendimentos modernos eivados do espírito materialista que ignora ofensivamente a Deus podem ser também comparados às construções apontadas em ambos livros sagrados.









E se não tivesse existido a Torre de Babel?

A Torre de Babel esteve na base da destruição do tecido social da humanidade. Uma coisa mais profunda, portanto, do que a destruição da sociedade.

Essa destruição do tecido social acarretou um desfazimento mais radical do que a morte física de todas as pessoas que se dispersaram na explosão linguística e étnica.

Espírito Santo, Basílica do Rosário, Lourdes
A dispersão teve como razão um pecado em que toda a humanidade de então se uniu para fazer um insulto a Deus: construir uma torre que chegasse até o céu numa emulação com o Criador.

A Torre de Babel foi a um símbolo no qual se exprimia uma vontade de revolta universal.

Se as nações tivessem sido fiéis ao plano divino, não teriam cometido esse pecado.

Provavelmente, os povos teriam se dilatado sobre a Terra como uma mancha de azeite na qual a mancha vai se espalhando, mas suas periferias conservam a continuidade em graus diversos com o centro, quer dizer, a unidade.

Teria assim sido possível uma língua, uma civilização e uma religião universal genuína, porquanto a revelação poderia ser conhecida por todos e transmitida com facilidade.

Mas, com o pecado da Torre de Babel, a possibilidade da expansão na união ficou impossível.

As nações tomaram rumos próprios, cada uma foi acrescentando à sua maneira de ser coisas que não podia comunicar à outra. Isso criou terreno fértil para um pulular de heresias desagregadoras, de culturas discordantes, de rivalidades de interesses, desentendimentos, inimizades e guerras.

A única exceção que conservou a harmonia foi o filão fiel que se perpetuou através de Abraão e no povo eleito.



Nosso Senhor Jesus Cristo funda a Igreja para reconstituir a unidade dos povos

Instituindo a Igreja Católica e mandando os 12 Apóstolos pregar o Evangelho a todo o mundo, o Redentor deu inicio a uma obra de reconstituição da unidade existente entre os homens antes de Babel.

Porém, até o momento, a unidade obtida é parcial e dificultosa.

O inimigo do gênero humano e os pecados dos homens retardaram essa obra.

A pretensão que Babel quis realizar no plano natural, a Revolução Protestante (1517) tentou recriá-la na Igreja. Quer dizer, erguer o orgulho humano até os Céus se atribuindo poderes para interpretar livremente a palavra de Deus e a Lei.

Esses poderes somente o Espírito Santo os tem, e Ele os concede a seus intérpretes legítimos, o Magistério e a Tradição da Igreja, que falam pela voz do Papa e dos bispos católicos.

Juízo Final, Fra Angelico
Juízo Final, Fra Angelico
Também desde a Revolução Francesa (1789), tenta-se a construção da sociedade humana fazendo abstração de Deus, de sua Igreja, extinguindo os governos que obedecem às suas Leis. A tábua dos Direitos Humanos foi instalada onde antes reinava a Tábua da Lei de Deus.

A Revolução Comunista (1917) e seus análogos de tipo socialista-nazista-fascista levaram essa revolta a ponto de quererem extirpar a própria ideia da existência de Deus.

Hoje, parece que a organização planetária “babélica”, feita contra Deus, chega até o céu. Porém, ao mesmo tempo, um pouco por toda parte dá estalos e seus construtores se entendem cada vez menos.

Entretanto, a obra regeneradora do catolicismo não cessa nunca. E no futuro – e desejamos que não seja longínquo – esse plano de Deus vai se realizar. E isto ainda que aconteçam castigos purificadores como Nossa Senhora advirtiu em Fátima e em La Salette.

Essa realização futura terá um acréscimo que os povos antes de Babel não conheceram: a intercessão maternal de Nossa Senhora e sua mediação que tudo pode diante de Deus todo-poderoso.

FIM



terça-feira, 12 de março de 2013

O que diz a ciência sobre a Torre de Babel?
Existiu? Por que ruiu? Sobrou algo? Onde?

Torre de Babel, representação artística
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O episódio da Torre de Babel e dispersão da humanidade é um dos assuntos mais presentes na memória dos povos.

Prefigurou também momentos caóticos que se repetiriam em muitos lugares em épocas históricas posteriores, inclusive nos dias de hoje. Além de ser uma imagem da imensa confusão que vai prevalecer no fim do mundo.

Entretanto, sabe-se pouco sobre essa torre.

Como era ela: retangular, circular, elíptica? Quanto media de altura? Foi uma mera torre ou um templo?

Onde ficava? Existem ainda vestígios? Quem a concebeu?

Foi Deus quem puniu? Por que puniu? Deus derrubou a Torre? Se não foi Deus, quem foi?

Por que ela ficou como o símbolo da maldição? Para onde foram seus construtores?

Os homens que fizeram as pirâmides do Egito, dos maias ou outras semelhantes têm algo a ver com os arquitetos da Torre de Babel?

Significado e época

A Torre de Babel paradigmática, de que nos fala o Gênesis e da qual procede a diversidade das línguas humanas, está envolvida em densas nuvens de interrogações.

Sua construção constituiu sem dúvida um dos momentos mais pecaminosos da história da humanidade, deixando um rastro de desgraças que sofremos até hoje.

“Babel” significa “confusão”.





Estima-se que sua construção se deu por volta do ano 2.420 a.C., quer dizer, aproximadamente 130 anos após o Dilúvio.

Portanto, bem antes do início da Grande Pirâmide do Egito (por volta de 2.170 a.C.), do nascimento de Abraão (1.976 a.C.) e da fundação do reino de Babilônia (por volta de 1.894 a.C.).

Usamos a escala do tempo que aponta a criação de Adão no ano aproximado de 4.000 a.C.

A Torre de Babel é, pois, o mais antigo monumento de grande importância do qual se tem noticia.


O Gênesis

A Bíblia Sagrada é o documento mais digno de Fé e a fonte histórica mais séria e pormenorizada.

A Torre foi construída por descendentes próximos de Noé, num tempo em que o reduzido número da humanidade de então vivia reunido e falava uma mesma língua, provavelmente a mesma de Adão e Noé.

Nemrod dirigiu a construcao da Torre de Babel,
pintura de Frans Francken II, Museo del Prado, Madri
Segundo a tradição, Nemrod, bisneto do patriarca Noé, foi o “rei” que comandou a construção da Torre:

“Nemrod foi o primeiro homem poderoso da terra (Gênesis 10,8), e “Ele estabeleceu o seu reino primeiramente em Babilônia, Arac, Acad e em Calane, na terra de Senaar”. (Gênesis, 10,10).

Supõe-se habitualmente que a Torre de Babel foi erguida no sul da Mesopotâmia. Ou seja, no atual Iraque, não longe da cidade de Babilônia, fundada muito depois; ou no máximo no sul do Irã.

Há outras teorias sobre o local, apoiadas em diversos raciocínios, porém também carentes de fundamentos arqueológicos ou materiais.

Lemos no Gênesis:

1. Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.

2. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram.

“Façamos uma torre cujo cimo atinja os céus”,
quadro de Hendrick III van Cleve (1525-1589).
3. E disseram uns aos outros: “Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.” Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa.

4. Depois disseram: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.”

5. Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens.

6. “Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos.

7. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”

8. Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade.

9. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra. (Gênesis, 11, 1-9)

Foi por causa do orgulho dos homens que empreenderam a construção da famosa Torre que Deus lhes confundiu a linguagem, fazendo com que não se entendessem pelos diferentes idiomas que falavam.

Incapazes de se porem de acordo, os homens se dispersaram em todas as direções.

Outros testemunhos

Estela de Nabucodonosor II, The Schøyen Collection
Fora da Bíblia, o testemunho mais explícito encontra-se gravado numa placa babilônica de pedra escura conservada hoje na famosa The Schøyen Collection, (MS 2063) com sede em Oslo e Londres.

Nessa placa o rei de Babilônia Nabucodonosor II mandou escrever, no ano 570 a.C.:

“Um antigo rei construiu o Templo das Sete Luzes da Terra, mas ele não completou a sua cabeça.

“Desde um tempo remoto, as pessoas tinham-no abandonado, sem poderem expressar as suas palavras.

“Desde aquele tempo terremotos e relâmpagos tinham dispersado o seu barro secado pelo sol; os tijolos da cobertura tinham-se rachado, e a terra do interior tinha sido dispersada em montes”.

Desta maneira, o próprio rei Nabucodonosor II nos fornece uma ideia do que tinha restado da Torre de Babel.

Também nos informa que ele próprio ordenou recolher os últimos elementos aproveitáveis para construir uma nova Torre, não sobrando nada da torre originária.

A nova Torre de Babel foi provavelmente o zigurat (torre-templo) conhecido como Marduk ou Etemenanki, na cidade de Babilônia.

Para o imenso trabalho que exigiu, Nabucodonosor II escravizou os judeus e levou-os para Babilônia, destruindo Jerusalém e o Templo de Salommão.

A nova Torre de Babel referida na placa em pedra, tinha sete (ou oito) andares e 91 metros de altura. O historiador grego Heródoto a descreveu no ano 440 a. C.:

“A parede exterior da Babilônia é a principal defesa da cidade. Há, contudo, uma segunda parede interior. (...)

“O centro de cada divisão da cidade era ocupado por uma fortaleza. Numa ficava o palácio dos reis, (...) na outra estava o sagrado recinto de Belus, um cercado quadrado de 201 metros de cada lado, com portões de latão sólido, que também lá estavam no meu tempo.

Maqueta do zigurat de Etemenanki, de Nabucodonosor II
“No meio do recinto estava uma torre de alvenaria sólida, de 201 metros de comprimento e de largura, sobre a qual estava erguida uma segunda torre, e nessa uma terceira, e assim até oito.

“A ascensão até o topo está do lado de fora, por um caminho que rodeia todas as torres.

“Quando se está a meio do caminho, há um lugar para descansar e assentos, onde as pessoas podem sentar-se por algum tempo na sua ascensão até o topo.

“Na torre do topo há um templo espaçoso, e dentro do templo está um sofá de tamanho invulgar, ricamente adornado, com uma mesa dourada ao seu lado.

“Não há estátua de espécie alguma nesse sítio”.

Essa segunda Torre de Babel acabou ruindo. O rei Alexandre Magno (356 a.C.—323 a.C.), conquistador vindo da Macedônia, mandou recolher os restos para reconstruí-la, desmontando o que tinha sobrado.

Mais foi surpreendido pela morte na própria Babilônia. Nada foi concluído e o material foi dispersado.

Desta maneira, da Torre de Babel originária não sobraram nem os restos dos restos.

A segunda Torre de Babel feita por Nabucodonosor é por vezes confundida com a primeira. Registramos aqui estes dados históricos para efeitos de esclarecimento. Não voltaremos a falar dela, concentrando-nos apenas na primeira Torre.

Sobre ela, o historiador hebreu Flávio Josefo (37 ou 38 d.C. – 100 d.C.), em seu livro “Antiguidades Judaicas” (1.4.3) fornece a seguinte narração:

Veja vídeo
“Foi Nemrod quem os excitou a praticar semelhante afronta na presença de Deus. Ele foi o neto de Ham, filho de Noé, homem corajoso e de grande força de mando.

“Nemrod persuadiu-os a não atribuir sua obra a Deus, como se fossem felizes somente por si próprios, e acreditarem que só seu esforço lhe daria a felicidade.

“Ele foi transformando seu governo numa tirania, procurando afastar os homens do temor de Deus, e mantê-los numa constante dependência de seu poder...

“Então a multidão estava sempre prestes a obedecer as ordens de Nemrod e julgar amostra de covardia se submeter a Deus.

“Eles construíram uma torre, não poupando nenhum esforço e em nada sendo negligentes no trabalho.

“E por causa das muitíssimas mãos empregadas, a torre subiu muito rapidamente, mais rápido do que se podia esperar.

“Sua espessura era tão grande e estava tão solidamente construída, que sua grande altura parecia, de qualquer ponto de vista, ser menor do que realmente era.

“Foi feita de tijolos cozidos cimentados com uma argamassa feita de betume que não permitia filtrações de água.

O desentendimento tomou conta dos homens.
Quadro de Lodewyk Toeput (1550-1605)
“Quando Deus viu que agiam com tanta maldade Ele decidiu não exterminá-los totalmente, posto que não tinham progredido em sabedoria após a destruição dos pecadores que os precederam [no Dilúvio]; então Ele gerou um tumulto entre eles fazendo que falassem línguas diferentes, e tornando-os incapazes de se entenderem um com o outro.

“O local onde construíram a torre hoje é chamado Babilônia por causa da confusão das línguas, sendo que antes se compreendiam facilmente.

“Pela palavra Babel, os hebreus entendem confusão...”

Tanto pelo que ensina a Bíblia quanto pelo que explica o historiador Flávio Josefo, vemos que a causa da punição foi o orgulho contido num sonho laico de grandeza completamente humana.

Movidos por ele os homens da Torre de Babel tencionaram erigir uma obra “cujo cimo atinja os céus” para assim tornarem “célebre o nosso nome” (Gen, 11, 4)



continua no próximo post: Torre de Babel: as lendas pagãs, a ciência moderna e a Babel do Anticristo