segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Hospital cruzado de Jerusalém
inspirou a criação dos hospitais no mundo

A Grande Sala dos Pobres, do Hospital (Hôtel-Dieu) de Beaune
nos dá uma ideia de como pode ter sido o Hospital de Jerusalém
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







continuação do post anterior: O primeiro Hospital foi cruzado e em Jerusalém. Hoje à luz do dia


O Hospital segundo testemunhos de época


A Ordem que criou e deu todo seu brilho ao Hospital foi fundada durante a Primeira Cruzada pelo Bem-aventurado Pierre-Gérard de Martigues, mais conhecido como Gerardo Thom (Tum, Tune, Tenque, segundo as grafias).

Ele foi reconhecido como fundador em Bula de 1113 do Papa Pascoal II, confirmada pelo Papa Calixto II pouco após a morte do Beato em 1120.

O Hospital, como seu nome indica, tinha o objetivo de servir de hospedaria para os peregrinos.

Mas, as condições difíceis e perigosas da romaria a Terra Santa adoentava a muitos. Também eram numerosos os que chegavam feridos pelas violências dos infiéis.

O Hospital foi então passando a ser uma coisa que não existia até então: uma casa para curar doentes, pessoas debilitadas ou qualquer outro mal do corpo.

O historiador americano Thomas Woods cita João de Würzburg, sacerdote alemão que ficou pasmo com o que viu no Hospital de São João quando de sua romaria a Jerusalém.

A casa – escreveu ele – alimenta tantos indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão grande número de esmolas aos pobres, seja aos que chegam até a porta, seja as que ficam do lado de fora, que certamente o total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos administradores e dispensários da casa” (Thomas E. Woods, How the Catholic Church built Western Civilization, Regnery Publishing Inc, Washington 2005, p. 178. Em português: Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, Quadrante, SP, 2008).
Hospital medieval de Beaune: figuras de cera recriam o ambiente
Teodorico de Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque, “indo através do palácio, nós não podemos de maneira alguma fazer uma ideia do número de pessoas que ali se recuperam. Vimos um milhar de leitos.

“Nenhum rei ou tirano seria suficientemente poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas alimentadas nessa casa” (Woods, p. 178).

“Nossos senhores, os pobres”

O sucessor do Beato Gerardo, Raymond du Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, escreveu o Decreto, ou Regra, da Ordem.

Nele incita os monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heroicos por “nossos senhores, os pobres”.

Pois a espiritualidade da Ordem de São João via no doente um “pobre de Cristo” ou um “santo Pobre”, e isto antes mesmo de Deus enviar o grande São Francisco de Assis.

“Quando os pobres chegam – diz o artigo 16 do decreto de du Puy – devem ser assim acolhidos: que recebam o Santo Sacramento, após terem confessado primeiro seus pecados ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um Senhor”.

O decreto de du Puy, que leva o titulo de “Como Nossos Senhores os doentes devem ser recebidos e servidos”, virou um marco no desenvolvimento dos hospitais católicos (Woods, pp. 178-179).

O Hospital de Jerusalém inspirou a criação de uma rede de hospitais similares na Europa que acabou dando nos hospitais modernos.

Sua ordem interna, sua qualidade no atendimento e seu espírito de caridade fizeram dele o modelo das instituições que à sua imitação passaram a se chamar também “hospital”.

De retorno da Terra Santa, os peregrinos contavam na Europa a maravilha do Hospital de Jerusalém.

Não poucos deles eram nobres, ricos comerciantes e até reis, e passaram a financiar instituições que imitassem o modelo de São João de Jerusalém.

Pois o Hospital de Jerusalém era gratuito para os doentes ou peregrinos sem hospedagem, abundantes nesses tempos de guerra em que não havia hotéis.

Cozinha do Hôtel-Dieu de Beaune. O Hospital de Jerusalém
alimentava milhares de pessoas diariamente de modo gratuito
Em 1131, o rei Alfonso de Aragão legou um terço de seu reino aos Cavaleiros Hospitalares.

No século XII, os novos hospitais da Europa pareciam, do ponto de vista da eficiência e organização, mais com hospitais modernos do que com os antigos hospícios – descontadas as limitações materiais, técnicas e de conhecimentos da época.

No século XIII, os Hospitalários administravam pelo menos 20 outros hospitais e leprosários em território europeu.

Mas o de São João de Jerusalém estava sempre na frente pelo profissionalismo, organização e disciplina.

A hospitalidade de que os beneditinos davam exemplos aparentemente insuperáveis foi de algum modo sobrepujada pela dos monges-cavaleiros de São João de Jerusalém, ordem hoje mais conhecida como Ordem de Malta.

Cada dia o doente devia ser visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas refeições. Os responsáveis não podiam comer antes que os pacientes.

Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e garantia vestimentas e roupa de cama limpas – acrescenta o Prof. Woods. PARA VER O CURSO DE AULAS LEGENDADAS EM PORTUGUÊS DO PROF. WOODS, CLIQUE AQUI.

Ocaso do Hospital de Jerusalém e do sistema hospitalar medieval

Após o desaparecimento do Hospital de Jerusalém pela incúria maometana, o rei protestante Henrique VIII fechou na Europa os mosteiros e confiscou suas propriedades. Desapareceu então a caridade para com os necessitados.

Ruínas do Hospital de Jerusalém
A redistribuição das terras abaciais trouxe “a ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos camponeses, a quebra de pequenas comunidades que eram seu mundo, e a verdadeira miséria passou a ser seu futuro” (Woods, p. 182).

Idêntico ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847, mais de meio século depois, a França tinha 47% hospitais a menos do que no ano do confisco (Woods, pp. 185-186).

Hoje os hospitais em mãos do Estado – por vezes mal cuidados – ou dos particulares – por vezes caríssimos – ainda usufruem do impulso dado pelo Hospital de São João de Jerusalém, impregnado de caridade cristã.

A descoberta das ruínas do Hospital dos Cruzados é como o achado de uma relíquia da História da Igreja. E da história da ciência médica também.

FIM

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O primeiro Hospital foi cruzado e em Jerusalém. Hoje à luz do dia

Fundo: ruínas do Hospital de Jerusalém.
Frente: brasão de feitio moderno dos hospitalários
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Uma equipe de arqueólogos da Autoridade de Antiguidades de Israel – AAI (máxima autoridade na matéria do país), liderada por Renee Forestany e Amit Reem, encontrou as ruínas do primeiro hospital da história.

Pois esse hospital serviu de modelo para as casas de saúde que se construíram a partir de então.

Em seu momento, a notícia repercutiu largamente na imprensa internacional. Por exemplo “Público” de Portugal, “ABC” de Madri, e em sites especializados em arqueologia como “Heritage Daily”

As ruínas do edifício hoje ficam na Cidade Velha de Jerusalém, no coração do bairro cristão, num local também conhecido como Muristão, uma corruptela de Hospital em língua persa.

A parte desentulhada revela um imenso prédio construído pelos Cruzados entre os anos 1099 e 1291 d.C.

Trata-se em verdade do famosíssimo Hospital de São João de Jerusalém, criado pela ínclita Ordem religiosa de cavalaria hoje conhecida como Soberana Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta. Abreviadamente: Ordem de Malta.

Um monumento erigido nos tempos modernos no local pela própria Ordem de Malta testemunha que lá existiu o famoso Hospital.

Segundo o jornal israelense Haaretz, a revelação é o produto de anos de investigação e restauro.

Durante muito tempo, as ruínas foram usadas para um mercado árabe de frutas e legumes. O fato impedia os trabalhos. O mercado fechou de há muito.

Um aspecto do Hospital de Jerusalém após desentulhar o local
Ordem cruzada criou o modelo do hospital para os séculos futuros

O que resta do velho hospital impressiona pela sua magnitude. Ele cobre pelo menos uma área equivalente a um campo de futebol e meio. O total do prédio deve ter atingido 15.000 metros quadrados.

Os grandes arcos e as colunas, o pé-direito de seis metros de altura, e a divisão do espaço em salas grandes e pequenas dão pistas preciosas em relação à sua dimensão e ao seu uso.

Os monges-cavaleiros da Ordem dos Hospitalários, hoje Ordem de Malta, também garantiam a segurança dos peregrinos da Terra Santa.

Nos momentos críticos, os monges hospitalares acompanhavam os romeiros em suas viagens por locais infestados de assaltantes e bandos de mouros até os portos ou as cidades por onde Jesus passou.

Caso necessário, juntavam-se à batalha e constituíam uma das mais temíveis unidades de elite cristã e terror das hordas muçulmanas.

Krak dos Cavaleiros (Síria) hoje.
Foi uma das peças chaves da segurança da Terra Santa
na mão dos cavaleiros hospitalários
Para garantir a segurança, os monges hospitalários chegaram a construir ou possuir na Terra Santa sete grandes fortalezas – entre as quais o mítico Krak dos Cavaleiros – além de outros 140 castelos menores.

Organização e tamanho espantosos para a época

Renee Forestany e Amit Reem, coordenadores da escavação, também pesquisaram documentos da época. “Informamo-nos a respeito do hospital através de documentos históricos contemporâneos, a maior parte em latim”, contam.

Eles ainda explicam que esse sofisticado hospital tinha capacidade para dois mil pacientes de todo tipo, independente de idade, gênero ou religião. Homens e mulheres eram atendidos em setores separados.

Tal como as atuais unidades hospitalares, ele estava dividido em asas e departamentos, segundo a natureza das doenças e a condição dos pacientes.

Acolhiam recém-nascidos abandonados, que eram atendidos com grande dedicação, segundo o comunicado da AAI. O orfanato recebia crianças que perdiam os pais ou que eram simplesmente deixadas por eles ao cuidado dos monges.

Muitas dessas crianças viriam a trabalhar mais tarde para a Ordem, e alguns dos rapazes chegaram mesmo a combater nas fileiras dos cruzados.

A mesma AAI procura minimizar o prestígio dessa grande instituição católica acenando para os pobres conhecimentos da medicina da época. Mas essa ignorância era geral, e não culpa dos frades.

Antes pelo contrário, a ordem e a higiene que reinavam no Hospital estabeleceram o modelo de instituição hospitalar para o mundo civilizado, contribuindo poderosamente para o desenvolvimento da ciência médica.

Monumento confirma que ali estava o famoso Hospital
A instituição do hospital era desconhecida dos pagãos, inclusive dos muçulmanos. A medicina era venerada pelos árabes, porém desde que nasceu o Hospital de São João os médicos árabes iam a aprender da boca dos frades Cruzados.

O Hospital de São João de Jerusalém maravilhou a Saladino (1138-1193), sultão e chefe militar islâmico que conquistou Jerusalém em 1187.

Por isso o implacável guerreiro permitiu aos monges manterem as portas abertas e até ampliarem o Hospital.

Porém, as autoridades maometanas não souberam cuidar de uma instalação tão específica. E quando, devido a um terremoto, grande parte do prédio velho desmoronou no ano 1457, os islâmicos nem souberam restaurá-lo ou voltar a pô-lo em funcionamento.

O Império Otomano apenas conseguiu abrir o mercado de frutas e legumes nas ruínas.

E o povo de Jerusalém, islâmico ou não, ficou às voltas com as doenças, sem ter onde procurar tratamento ou auxílio.

Hospital: uma invenção católica desconhecida dos antigos

O caso do Hospital de São João de Jerusalém é paradigmático do papel da Igreja Católica impulsionando as ciências médicas quando e onde estas, ou não existiam ou estavam no último ponto do esquecimento.

A instituição do hospital, assim como dos orfanatos e dos asilos na área da saúde é um produto específico da Cristandade nascida sob o bafejo da caridade cristã.

Fundo: aspecto dos trabalhos nas ruínas do Hospital de Jerusalém.
Frente: brasão de feitio moderno dos hospitalários
No ano 600, o Papa São Gregório Magno impulsionou a construção de um hospital em Jerusalém para tratar e dar hospedagem aos peregrinos da Terra Santa.

Esse primeiro hospital-albergue foi ampliado por ordem de Carlos Magno, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, por volta do ano 800. A reforma incluiu a criação de uma biblioteca que dependia do hospital

Em 1005, os fanáticos da seita islâmica fatimita, que achavam que o califa Al Hakim era uma encarnação de Alá, realizaram a “proeza” de destruir o hospital e 300 outros prédios em Jerusalém.

Os historiadores ocidentais se referem a Al Hakim como o “Califa louco”, mas hoje em dia ele continua sendo venerado por diversas sub-seitas islâmicas.

Em 1023, à vista dos resultados desastrosos, o califa Ali az-Zahir do Egito autorizou a reconstrução do hospital sobre as ruínas do mosteiro de São João Batista fundado por monges beneditinos.


continua no próximo post: Hospital cruzado de Jerusalém inspirou a criação dos hospitais no mundo


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A surpresa de Megido: é a igreja cristã mais antiga do mundo?

Presos descobrem mosaico em Israel, Megido
Presos descobrem mosaico em Megido, Israel
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Quando o coronel Sharon Shoan, comandante da prisão de segurança máxima de Megido, Israel, ordenou aos presidiários empreenderem obras de escavação para ampliar as instalações jamais imaginou o que iriam a encontrar.

Ele sabia que a região é rica em vestígios históricos e os trabalhos foram supervisionados pela Agência de Antiguidades israelense (I.A.A. em inglês).

Na obra, trabalhavam prisioneiros de boa conduta.

Eles descobriram um grande mosaico que servia de piso daquela que, segundo alguns, poderia ser a mais antiga igreja católica do orbe.

Em verdade, a mais antiga igreja do mundo é a do Cenáculo em Jerusalém, onde Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a Missa.

Confira: O mais antigo templo católico: a "igreja dos Apóstolos" no Cenáculo


O mosaico de Megido, porém, mais provavelmente é dos anos 240-241 d.C.

Uma das igrejas católicas mais antigas do mundo descoberta em Israel
Uma das igrejas católicas mais antigas do mundo descoberta em Israel
Nele há menções a Jesus Cristo como Deus, e o peixe, símbolo cristão.

A estrutura é típica de uma casa privada reformada para atender as necessidades litúrgicas de uma comunidade em aumento.

Ele seria um exemplo da expansão do Cristianismo nas altas esferas do Império.

O Império pagão perseguiu a Igreja nascente até o Edito de Milão do ano 313.

Com aquele feliz edito o juizoso imperador Constantino concedeu liberdade plena ao cristianismo.

Então, inúmeros templos pagãos fecharam, muitos outros foram transformados em igrejas, e o catolicismo passou a ser a religião principal do Império romano cristianizado.

Os mosaicos representam também quatro mulheres e uma Missa.

O arqueólogo israelense Yotam Tepper, da Universidade de Tel Aviv, trabalhou os restos da igreja confirmando que data do século III. Nessa época os cristãos eram perseguidos pelo Império Romano.

O mosaico principal do chão mede 54 m2 e está muito bem conservado.

Uma das igrejas católicas mais antigas do mundo descoberta em Israel
Encontra-se o nome do centurião romano Gaianos, ou Porfírio, provável benfeitor da obra.
Inclui inscrições, figuras geométricas e representações de peixes, símbolo utilizado pelos primeiros cristãos.

As inscrições, escritas em grego antigo, são em número de três, segundo Wikipedia.

Um deles menciona o oficial romano Gaianus, que teria doado “seu próprio dinheiro” para a confecção do mosaico.

A inscrição pode ser assim traduzida:

“Gaïanos, também chamado Porfirio, centurião, nosso irmão [amado] e dignitário, mandou fazer este mosaico às suas custas. Broutis conseguiu”.

Uma segunda inscrição diz: “Comemore Primilla, Kyriakê, Dorotea e novamente Khrêstê”.

É possível que essas quatro mulheres tenham sido mártires desta comunidade.

E ainda frente à anterior, lê-se numa outra inscrição:

“Memorial da piedosa Akeptous que ofereceu o altar de Deus Jesus Cristo”.

No altar foi sem dúvida celebrada a Santa Missa, a que alude o termo memorial.

“Esse altar estava provavelmente no centro da sala, perto da inscrição, segundo o arranjo constatado nos restos das igrejas do Norte da África.

“O nome de Akeptous, sem dúvida derivada do latim Acceptus, pode referir-se a uma escrava”.

Igreja católica de Megiddo, uma das mais antigas do mundo
Igreja católica de Megido, uma das mais antigas do mundo
Se a datação do pavimento da igreja de Megido está correta, a descoberta confirma os dados conhecidos por fontes literárias.

Em particular da “História Eclesiástica” de Eusébio de Cesaréia.

De fato, o Cristianismo passou a ser amplamente tolerado a partir do ano 260.

A construção poderia, portanto, datar do último quarto do século III ou do primeiro quarto do século IV.

Por outro lado, o antropólogo Joe Zias, ex-curador da Autoridade de Antiguidades de Israel, acredita que:

“Meu palpite é que aqui houve um edifício romano que foi convertido em uma igreja”.

Quem daqueles primeiros católicos teria dito que quase dois mil anos depois de sair de uma era de perseguição, e de consagrar seus pobres recursos à glória de Deus, veriam sua modesta igreja objeto de uma tão gloriosa exumação!