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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Os Santos Pastores de Belém

São Gabriel anuncia aos pastores o nascimento do Salvador. Capela do Campo dos Pastores, Belém
São Gabriel anuncia aos pastores o nascimento do Salvador.
Capela do Campo dos Pastores, Belém
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Quantos eram?

Como se chamavam?

O que foi feito deles?

Quando morreram?

Onde estariam enterrados?

Eis sua maravilhosa vida após o grande prodígio de Belém.


São Lucas descreve uma das notas particularmente suaves e doces da abençoada noite em que nasceu o Salvador.

Ela provém dos pastores que moravam nas proximidades da Gruta de Belém e foram adorá-Lo, embebidos de admiração, humildade e nobre encanto:


“Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.

O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: ‘hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor.

Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura’.

E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:

Anunciação aos pastores. Très Riches Heures du duc de Berry
Anunciação aos pastores.
Très Riches Heures du duc de Berry
‘Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência (divina)’.

Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou.

Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.

Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.

Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.

Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.

Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito” (Lc 2, 8-20).


São Lucas registra onde estavam, o que faziam, a aparição inicial do Anjo, a incorporação dos coros angélicos, seu cântico, a reação dos pastores, a adoração e, depois, seu retorno narrando a todos a maravilha que tinham contemplado, glorificando e louvando a Deus.

O anunciador não foi outro senão o Arcanjo São Gabriel.

O embaixador divino para a Encarnação sem dúvida era o mais indicado para dar a conhecer o nascimento do Verbo de Deus Encarnado.

Ao embaixador celeste se uniram coros de anjos que entoaram a primeira e mais maravilhosa canção de Natal.

Os santos pastores de Belém


Porém, depois desse comovedor relato, o silêncio caiu sobre os santos pastores.

Quantos eram? Como se chamavam? O que foi feito deles? Quando morreram? Onde estariam enterrados?

Capela conhecida como Campo dos Pastores, no local onde moravam, Belém
Atual capela conhecida como Campo dos Pastores, no local onde moravam, Belém
Nós os reencontramos em todo presépio natalino, representados segundo a imaginação dos fiéis, mas muito pouco ou nada nos é ensinado a seu respeito.

Entretanto, após o grande prodígio de Belém, eles tiveram uma vida maravilhosa, da qual pouco se fala.

O historiador M. Ghattas Jahshan, em seu livro Estrada de Natal, conta que a um quilômetro e meio a leste de Belém, há uma colina com grutas naturais rodeadas de pinheiros, oliveiras e ciprestes. (GHATTAS JAHSHAN, M.: Ruta de la Navidad. Ed. Iepala, Madrid 1990; MARTÍN MARTÍN, J. L. y MARTÍN PUENTE, S.: Historia de Ledesma. Ed. Diputación de Salamanca, 2008, pp. 151-158)

Ali, Santa Paula, fundadora de dois mosteiros em Belém, e São Jerônimo, Doutor da Igreja, que morou e morreu nas proximidades da mesma cidade, onde traduziu a Bíblia Vulgata em latim, no século IV, viram os restos da Torre do Rebanho (Turris Ader, em latim), levantada sobre a moradia dos pastores, segundo recolheu o site ArtePesebre.

Hoje, no mesmo local há outra igreja, erigida em 1954 sob o patrocínio dos religiosos franciscanos, custódios da Terra Santa, conhecida como Campo dos Pastores.

Essa foi construída sobre os restos de um antigo mosteiro, feito, por sua vez, sobre una primitiva igreja ampliada pelo imperador Justiniano no século VI.

Abaixo da igreja do Campo dos Pastores está a gruta que servia também de moradia aos pobres guardiães de ovelhas, que ali refugiavam seus rebanhos durante a noite, para protegê-los das intempéries.

Ela hoje pode ser visitada pelos peregrinos na Terra Santa.

Por volta do ano 670, o bispo Frances Arculfus deixou registrada a existência de uma igreja dos tempos de Constantino, junto à Torre do Rebanho, que continha os três túmulos dos pastores.

Torna-se assim historicamente incontestável que os pastores foram três, que seus jazigos eram tidos como local santo já nos primeiros séculos, e que lhes foram atribuídos, como veremos, muitos milagres.

Nas pinturas e esculturas mais tradicionais nas igrejas, eles costumam ser representados nesse número, como nos afrescos da igreja do Campo dos Pastores.

Entrada à casa dos Pastores. Muro e enfeites são posteriores
Entrada à casa dos Pastores. Muro e enfeites são posteriores
Um é adolescente, outro é idoso e, por fim, o terceiro é um adulto de meia idade que toca uma flauta.

Como chegaram à Espanha?


Por volta do ano 960, cavaleiros que participaram na tentativa de defender Jerusalém levaram os corpos dos três santos pastores a Ledesma, província de Salamanca, na Espanha.

Eles previam que a invasão islâmica os punha em perigo, pois a fúria anticristã estava tomando conta de toda a Terra Santa.

A urna trazida da Torre do Rebanho passou por Fuenterrabia (ou Hondarribia em basco), em Guipúzcoa, onde ficou uma arca pequena de mármore branco vazia, com três compartimentos que teriam sido sepulcro provisório dos três pastores de Belém.

Ela teria sido trazida do local no Oriente onde eles foram enterrados originalmente.

O arqueólogo C. Guarmani localizou-a em Belém e doou-a, no final do século XIX, a Antonio Bernal de O’Reilly, cônsul-geral de Síria e Palestina.

Este, por sua vez, a doou à igreja de Hondarribia.

Interior da gruta em que moravam e guardavam seu rebanho
Interior da gruta em que moravam e guardavam seu rebanho
O erudito historiador Remigio Hernández Morán assegura que ela guardou inicialmente os restos dos pastores, segundo noticiou La Gaceta de Salamanca.

Segundo Hernández Morán, “nos quatro ou cinco séculos seguintes houve silêncio a respeito dos restos dos pastores após a chegada a Ledesma, por causa da Reconquista”.

O perigo mouro com sua onda de crimes e profanações rondava essa região central de Espanha.

“Como medida de precaução ante um possível furto ou profanação por parte dos árabes, decidiram ocultá-los”, explicou.

Anos mais tarde, uma vez afastados os invasores islâmicos, decidiu-se recuperar os restos e erigir uma nova igreja para nela venerá-los.

Porém, perdera-se a lembrança do local exato onde estavam.

Mas a construção continuou, e eis que, trabalhando a terra para estabelecer os fundamentos, apareceram intactas as preciosas relíquias dos pastores.


Reconhecimentos oficiais


A partir desse dia, a história das relíquias dos santos pastores registra inúmeros milagres, sobretudo um, muito grande, concedido à região de Ledesma.

Esta padecia de uma grande seca, até que, em 25 de maio de 1164, foi aberta a arca das relíquias dos santos pastores.

Após serem feitas as rogativas prescritas, em poucas horas caiu uma chuva que durou cinco dias.

O professor Hernández Morán descobriu, nos arquivos vaticanos, um Breve do Papa Inocêncio XI, de julho de 1677, concedendo Indulgencia Plenária, cumpridas as condições de piedade, “à Confraria reunida sob a invocação dos Santos Jacob, Isacio e Josefo, canonicamente erigida e fundada na igreja paroquial de São Pedro da vila de Ledesma, diocese de Salamanca” em vários dias do ano, especialmente no primeiro domingo depois da Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas festas de Natal.

O Breve pontifício foi emitido na basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, informou o jornal local Heraldo – Diario de Soria.

Por fim, as relíquias foram depositadas na igreja dedicada a São Pedro e São Fernando, e o bispo salamantino Andrés Josef del Barco, no mês de julho de 1786, lavrou a ata de “Reconhecimento dos ossos que dizem ser dos pastores que adoraram o Menino Deus em Belém”.

Reliquias dos pastores custodiadas em Ledesma
Reliquias dos pastores custodiadas em Ledesma
A ata descreve o conteúdo com estas palavras:

“Uma cabeça inteira; metade dividida em três partes; quatro ossos grandes de pernas; dez pedaços de caveira; vinte e quatro costelas, e uma mandíbula; quatorze ossos medianos; quinze da coluna; sete pedaços pequenos de costelas; três pedaços pequenos de couro; dois pedaços pequenos que parecem de cortiça de árvore; três pedaços de lenço; uma colher de pau pequena quebrada pelo cabo; um pedacinho de osso envolto num papel pequeno; outro menor envolto noutro papel sem rótulo; um olho, ao que parece, envolto num papelzinho; em outro papel maior, vários pedaços de osso sem rótulo; um pedaço de pau desconhecido; umas tesouras grandes, um papelzinho com a inscrição seguinte ‘Dos gloriosos Josefo, Ysacio e Jacob Pastores de Belém, que mereceram ver e adorar os primeiros a Cristo Deus e homem recém-nascido no Portal’”.

Este papel acompanha atualmente os restos contidos na arca.

O historiador Méndez Silva, no século XVII, confirma o número, os nomes deles, e acrescenta que os três morreram virgens num dia 25 de dezembro, 40 anos depois daquela divina noite de Natal.

Em 1864, seus restos foram trasladados para a atual igreja de São Pedro e San Fernando, no bairro de Los Mesones.

Porém, a poeira do esquecimento foi caindo sobre ela e seu tesouro, devido à perda generalizada de interesse da religiosidade popular e o menosprezo racionalista pelas relíquias, contra as quais alega falta de autenticidade.

A arca ficou bem guardada, mas sua lembrança voltou a se perder até 1965, quando durante a restauração da igreja se achou, sob o altar-mor dedicado a São Pedro, o tesouro esquecido, todo de madeira forrado de pele de ovelha e carneiro e primorosamente adornado.

Quando foi aberta, apareceram restos humanos com a ‘autêntica’ que dizia: “Os gloriosos Josefo, Isacio e Jacob, pastores de Belém que mereceram ser os primeiros que viram e adoraram a Cristo, Deus e Homem recém-nascido no Portal”, a qual ainda pode ser lida pelos devotos nos dias de exposição.

Nenhuma outra localidade reivindica a posse de restos relacionados com os Pastores de Belém, caso frequente com algumas outras relíquias.

Igreja de Ledesma onde se guardam as reliquias dos Santos Pastores.
Igreja de Ledesma onde se guardam as reliquias dos Santos Pastores
Fato que reforça a certeza de que elas são incontestáveis.

O Pe. Casimiro Muñoz, que foi pároco da localidade, atendeu com amabilidade os jornalistas de ArtePesebre, satisfez toda a sua curiosidade, e respondeu a tudo o que se referia aos Pastores de Belém, fornecendo-lhes toda a informação verbal e escrita solicitada.

Na vigília da Santa Noite de Natal os sinos da basílica romana de Santa Maria Maggiore reboam com intervalos de 10 minutos, em memória do remotíssimo costume dos pastores de comunicar aos colegas mais afastados de toda a região o anúncio angélico, avisando com qualquer instrumento ruidoso que tinham ao seu alcance.

Os fiéis de Ledesma veneram a urna aberta dos Santos Josefo, Isacio e Jacob, e em toda a Terra os católicos seguem seu santo exemplo em todos os presépios de igrejas e casas de família.

Pastores e Reis


A este respeito, comenta Plinio Corrêa de Oliveira: “O anúncio aos pastores foi diferente ao feito aos Reis Magos, que o receberam de um modo místico e silencioso.

“Dom Guéranger, grande teólogo, observa que a dignidade dos Reis era maior que a dos pastores, mas estes foram os primeiros a chegar com anúncio angélico.

Eles pertenciam ao povo eleito, enquanto os Reis que chegaram depois representavam os povos gentios.

“O anúncio foi feito aos pastores pelos anjos e aos Magos por uma estrela e comunicações místicas silenciosas.

Dom Guéranger defende que vale muito mais a pena crer assim do que por um milagre externo pela palavra de Nosso Senhor: ‘Tomé, tu creste porque viste, bem aventurados os que não viram mas creram’.”

A paz prometida aos pastores em nossos dias


Reis e pastores adoram juntamente ao Menino Deus
Reis e pastores adoram juntamente ao Menino Deus
Encerramos fazendo uma adaptação de comentários do Prof. Plinio:

O ano se extingue num caos generalizado, como o ano passado, mas com uma potencialidade de confusão e de risco ainda maior em todos os países do Ocidente e do Oriente e na própria Igreja Católica.

É a ocasião de implorarmos a efetivação do cântico angélico que os pastores ouviram no primeiro Natal: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade.

Mas não uma paz e tranquilidade qualquer.

Há a paz dos cemitérios, na sua imobilidade, tristeza e silêncio: não é essa.

Só há paz genuína nas igrejas onde se professa na sua integridade a doutrina católica, apostólica, romana, onde o rito se faz em inteira harmonia com o culto e o dogma católico.

Mas quantas são?

Onde encontraremos na Terra a paz que Nosso Senhor Jesus Cristo quis trazer ao mundo? Infelizmente, em poucos lugares.

Encontramo-la no celestial Presépio em que, na manjedoura, o Rei da paz recebe com amor criaturas humildes, não só os pastores, mas até seus animais.

Os santos pastores foram soldados da paz e da ordem, enquanto a Terra gemia na revolta e na desgraça da desordem suprema, fingindo festa e alegria, espalhando o falso anúncio de que se vai para um ano melhor.

A paz de Cristo no Reino de Cristo implica a luta pela ordem contra a desordem, como quando no Céu São Miguel Arcanjo e os Anjos da fidelidade enxotaram Satanás e os anjos da infidelidade, indignos de permanecerem nas mansões celestiais e de continuarem hoje a enfumaçar a Igreja Católica. (Adaptação de uma mensagem de Natal feita por Plinio Corrêa de Oliveira em 18-12-92, e de sua palestra em 6-1-66. Transcrições não revistas pelo autor.)



El Campo de los Pastores en Belén. Pe. José de Jesús Aguilar Valdés





Belém: conhecendo a cidade biblica e o Campo dos Pastores!





Relíquias dos Pastores de Belém conservados em Ledesma





Relíquias dos Pastores de Belém conservados em Ledesma





O Campo dos Pastores em Belém Beit Sahur





quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Quem foram os Reis Magos?

'A viagem dos Magos' (1894), James Jacques-Joseph Tissot (1836-1902). Brooklyn Museum, New York City.
'A viagem dos Magos' (1894), James Jacques-Joseph Tissot (1836-1902).
Brooklyn Museum, New York City.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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diversos blogs







Um antigo documento conservado nos Arquivos Vaticanos lança uma certa luz, embora indireta e sujeita a caução, sobre a pessoa dos Reis Magos que foram adorar o Menino Jesus na Gruta de Belém. A informação foi veiculada por muitos órgãos de imprensa e páginas da Internet.

O documento é conhecido como “A Revelação dos Magos”. 

Provavelmente seja algum “apócrifo”, nome dado aos livros não incluídos pela Igreja Católica na Bíblia. Portanto, não são “canônicos”, apesar de poderem ser de algum autor sagrado.

“Canônico” deriva de “Cânon”, que é o catálogo de Livros Sagrados admitidos pela Igreja Católica e que constituem a Bíblia. Este catálogo está definitivamente encerrado e não sofrerá mais modificação.

Há uma série de argumentos profundos que justificam esta sábia decisão da Igreja.

Entretanto, uma extrema ponderação em apurar a verdade faz com que a Igreja não recuse em bloco esses “apócrifos” e reconheça que pode haver neles elementos históricos ou outros que ajudem à Fé.

Por isso mesmo, o Vaticano conserva a maior coleção mundial desses “apócrifos”, e os põe à disposição dos críticos de todas as religiões que queiram estudá-los.

A Igreja não tem medo de que possa sair qualquer coisa que desdoure a integridade e a santidade da Bíblia. Antes bem, deseja ardentemente encontrar qualquer dado que possa ajudar a melhor compreendê-la.

O apócrifo “A Revelação dos Magos” aparenta ser um relato de primeira mão da viagem dos Reis do Oriente para homenagear o Filho de Deus.

Reis Magos, Nicolás de Verdun (1130 – 1205).
Urna dos Reis Magos na catedral de Colônia
Só recentemente foi traduzido do siríaco antigo.

O mérito é do Dr. Brent Landau, professor de Estudos Religiosos da Universidade de Oklahoma, EUA, que dedicou dois anos para decifrar o frágil manuscrito.

Trata-se de uma cópia feita no século VIII a partir de algum original perdido que, por sua vez, fora transcrito meio milênio antes.

Portanto, a fonte original desse apócrifo dos Reis Magos remonta a menos de um século depois do Evangelho de São Mateus.

O documento levanta questões em extremo interessantes:

Quem foram ao certo, os Reis Magos?

Foram três?

Quais eram seus nomes?

De onde vieram?

Por quê?


Vejamos primeiro o que nos diz a única fonte digna de fé religiosa, o Evangelho de São Mateus:

“1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.
“2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.
“3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.
“4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.
“5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:
“6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).
“7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.
“8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.
“9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.
“10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.
“11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
“12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.” (São Mateus, cap. 2, 1ss)

Três Reis Magos, mosaico em San Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália.
No muro da igreja, concluida em 569, lê-se os nomes dos três.
Apresentados com gorros frígios (chapéu originário da Ásia Menor.
No Irã era atributo do deus Mitra).
A narração de São Mateus contém tudo o que é necessário para a Fé.

Mas com o beneplácito e a aprovação da Igreja a piedade popular acrescentou muitos outros pormenores, que foram transmitidos por tradição oral e que são aceitos sem contestação.

O que diz a Tradição sobre seu número, condição, proveniência e destino?

É aqui que entra o papel do grande São Beda, o Venerável (673-735), Doutor da Igreja e monge beneditino nas abadias de São Pedro e São Paulo em Wearmouth, e na de Jarrow, na Nortumbria, Inglaterra.

São Beda é uma das máximas autoridades dos primeiros tempos da Idade Média pelo fato de ter recolhido relatos transmitidos oralmente pelos Apóstolos aos seus sucessores, e destes aos continuadores.

São Beda é também considerado como fonte de primeira mão da história inglesa, sendo muito respeitado como historiador. Sua História Eclesiástica do Povo Inglês (Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum) lhe rendeu o título de Pai da História Inglesa.

No tratado “Excerpta et Colletanea”, o Doutor da Igreja assim recolhe as tradições que chegaram até ele:
“Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus.
“Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio.
“E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.
Três Magos adoram o Menino Jesus.
Sarcófago romano dos primeiros tempos do cristianismo, Museu Vaticano.
É, pois, São Beda quem por primeira vez escreveu o nome dos três. Nomes com significados precisos que nos ajudam a compreender suas personalidades.

Melquior quer dizer: “Meu Rei é Luz”, Gaspar significa “aquele que vai inspecionar” e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.

Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes.

Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo.

Também seus presentes têm um significado simbólico. Melquior deu ao Menino Jesus ouro, o que na Antiguidade queria dizer reconhecimento da realeza, pois era presente reservado aos reis.

Gaspar ofereceu-Lhe incenso (ou olíbano), em reconhecimento da divindade. Este presente era reservado aos sacerdotes.

Por fim, Baltasar fez um tributo de mirra, em reconhecimento da humanidade. Mas como a mirra é símbolo de sofrimento, veem-se nela preanunciadas as dores da Paixão redentora. A mirra era presente para um profeta. Era usada para embalsamar corpos e representava simbolicamente a imortalidade.

Desta maneira, temos o Menino Jesus reconhecido como Rei, Deus e Profeta pelas figuras que encarnavam toda a humanidade.

Em coerência com essa visão, a exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de Davi:

“Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. 11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”. (Sl. 71, 10-11) (P.S.: na numeração das traduções direto do hebraico, é o Sl. 72, 10-11).

Alguns especularam que talvez pelo menos um deles veio da terra de Shir (não identificada nos mapas modernos), na antiga China.

Em livro – escrito a título pessoal, portanto não sendo documento do magistério eclesiástico – Joseph Ratzinger (S.S.Bento XVI) comenta que “a promessa contida nestes textos [N.R.: Salmo 72,10] estende a proveniência destes homens até ao extremo Ocidente (Tarsis, Tartessos em Espanha), mas a tradição desenvolveu posteriormente este anúncio da universalidade aos reinos de que eram soberanos, como reis dos três continentes então conhecidos: África, Ásia e Europa”, segundo informou “Religión Digital” de Espanha.


A amplidão do leque de possibilidades geográficas fica patente neste comentário.

Tarsis ou Tartessos ficaria na Andaluzia, Espanha, especificamente em “algum lugar compreendido entre Cádiz, Huelva e Sevilha”. 

Segundo o “ABC” de Madri, os sevilhanos acham que se Melquior, Gaspar e Baltasar fossem andaluzes teriam se manifestado mais alegremente, teriam cantado “sevilhanas” e levado pandeiros.

A reação popular suscita um amável sorriso.

O que foi depois dos Reis Magos?

Reis Magos. Representam todas as raças. Andrea Mantegna (1431-1506). J. Paul Getty Museum, Los Angeles.
Reis Magos. Representam todas as raças.
Andrea Mantegna (1431-1506). J. Paul Getty Museum, Los Angeles.
De acordo com uma tradição acolhida por São João Crisóstomo, Padre da Igreja, os três Reis Magos foram posteriormente batizados pelo Apóstolo São Tomé e trabalharam muito pela expansão da Fé (Patrologia Grega, LVI, 644).

A fama de santidade dos Reis Magos chega até os nossos dias.

Seus restos são venerados na nave central da Catedral de Colônia, Alemanha, em magnífica urna de ouro e de pedras preciosas que extasia os visitantes.

As relíquias deles foram descobertas na Pérsia pela imperatriz Santa Helena e levadas a Constantinopla, capital do Império Romano de Oriente.

Depois foram transferidas a outra capital imperial no Ocidente – Milão –, até que foram guardadas definitivamente na Catedral de Colônia em 1163 (Acta SS., I, 323).

Por que eram "Magos"?

O nome “mago” era sinônimo de “sábio”. O tratamento dado a eles como grandes eruditos, prudentes e judiciosos, provinha do fato de os sacerdotes da Caldeia serem muito voltados para a consideração dos astros com uma sabedoria que surpreende até hoje.

A eles devemos o início da ciência astronômica.

Sem dúvida, seu caráter de “magos”, reconhecido pelo Evangelho de São Mateus, aponta para a área da civilização caldeia (cujo epicentro foi no atual Iraque, mas incluiu diversos países vizinhos, entre eles o Irã).

Com a decadência moral, os “magos” caldeus viraram uma espécie de bruxos, divulgadores de toda espécie de superstições.

Os Três Reis Magos teriam sido os últimos sacerdotes honrados daquele mundo pagão que aspiravam sinceramente conhecer o Salvador.

Relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia.
Neste caso, foram exemplos arquetípicos do pagão de boa-fé que deseja conhecer a verdadeira religião, e que assim que a encontra adere a ela sem demoras nem restrições.

Foram "Reis"?

Discute-se também em que sentido podem ser chamados de “Reis”, pois não se lhes conhece a procedência e menos ainda a localização do reino.

Porém, na Antiguidade, os patriarcas, ou chefes de grandes clãs, ou grupos étnico-culturais, governavam com poderes próprios de um rei, sem terem esse título ou equivalente. E seu reinado se concentrava sobre sua hoste, por vezes nômade.

São João Damasceno não recusava que eles fossem descendentes de Set, terceiro filho de Adão.

E este pormenor nos leva de volta ao “apócrifo” do Vaticano.

A estrela que os guiou

O referido manuscrito estava na Biblioteca Vaticana havia pelo menos 250 anos, mas não se sabe mais nada de sua proveniência.

Está escrito em siríaco, língua falada pelos primeiros cristãos da Síria e ainda hoje, bem como do Iraque e do Irã.

O Prof. Landau acredita que no apócrifo entra muita imaginação. Mas, há uma muito longa descrição das supostas práticas, culto e rituais dos Reis Magos.

Relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia, Alemanha.
Feitos, pois, os devidos descontos no apócrifo, lemos nele que Set, terceiro filho de Adão, transmitiu uma profecia, talvez recebida de seu pai, de que uma estrela apareceria para sinalizar o nascimento de Deus encarnado num homem.

Prêmio a uma fidelidade de séculos

Gerações de Magos teriam aguardado durante milênios até a estrela aparecer, confiantes no aviso de Set.

Mistérios da fidelidade! Milênios aguardando, gerações morrendo na esperança e transmitindo aos filhos o anúncio de um dia remoto em que o mundo receberia o Salvador!

Segundo o Prof. Landau, o apócrifo diz que a estrela no fim “transformou-se num pequeno ser luminoso de forma humana que foi Cristo, na gruta de Belém”.

A afirmação não é procedente se a interpretarmos ao pé da letra. Mas, levando em conta o estilo altamente poético do Oriente, poderíamos supor que o brilho da estrela de Belém convergiu no Menino Jesus e desapareceu.

E, de fato, depois de encontrar o Menino Deus, os Magos não mais viram a estrela.

Alertados por um anjo, voltaram por outro caminho às suas terras, como ensina o Evangelho de São Mateus, que não mais menciona a estrela no retorno.

Anúncio dos profetas e juízo de Padres e Doutores da Igreja

Adoração dos Magos, Gentile da Fabriano (1370-1427). Galleria degli Uffizi, Florença
Adoração dos Magos, Gentile da Fabriano (1370-1427). Galleria degli Uffizi, Florença
A festa da adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus recebeu o nome de Epifania do Senhor. Epifania vem do grego: πιφάνεια que significa “aparição; fenômeno miraculoso”.

A festa se comemora no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, ou 2 domingos após o Natal, dependendo do calendário litúrgico usado.

“Andaram as gentes na tua luz e os reis no esplendor do teu nascimento”, profetizou Isaías (Is 60, 3).

E São Tomás de Aquino explica: ‘Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões’.

Santo Agostinho sublinha que eles procuraram com fé mais ardente Àquele que punham de manifesto o clarão da estrela e a autoridade das profecias.

São João Crisóstomo completa dizendo: “porque buscavam um Rei celeste, embora nada descobrissem nele denotador da excelência real, contudo, satisfeitos só com o testemunho da estrela, adoraram-no”.

Veja também: Dado essencial: houve o fenômeno astronômico denominado “estrela de Belém”

Astrônomo defende com computador a existência da estrela de Belém


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Reaparece em Belém
o Anjo que aponta onde Jesus nasceu

Anjo redescoberto na basílica Natividade, Belém, olha fixo para o local onde Jesus nasceu
Anjo redescoberto na basílica Natividade, Belém,
olha fixo para o local onde Jesus nasceu
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Graças a uma equipe de restauradores italianos veio à luz precioso mosaico de um anjo que estava encoberto por pintura na Basílica da Natividade, em Belém, informou a BBC Brasil.

O feliz achado, depois da primorosa restauração, exibe em toda sua beleza um anjo que olha fixo para o local onde Jesus nasceu.

Coberta por reboco há quase mil anos, a obra encontrava-se fora do alcance do olhar humano.

A Basílica da Natividade, em Belém, precisava de uma importante restauração que envolvia a própria estrutura do milenar templo.

Contudo, um imprudente “ecumenismo” fazia depender as obras de restauro da aprovação de um conjunto de denominações cristãs.

As denominações ditas “ortodoxas” vivem apegadas a um passado mofado e amarfanhado, antipatizando-se com as restaurações.

Ademais, não têm a escola teológica nem o amor pelo passado que é sinal distintivo dos católicos. Esses possuem outra visão da tradição, da importância das obras de arte do passado e de sua contribuição para o presente e o futuro.

Malgrado os defeitos que possam ocorrer, o dinamismo católico é impulsionado por um amor sincero ao belo, à tradição, à história e de tudo o que se refere a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tudo procura o brilho que merece a única Igreja e que resplandece ao longo das vicissitudes tempestuosas dos milênios.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Dado essencial: houve o fenômeno astronômico da “estrela de Belém”

O astrônomo e matemático alemão Johannes Kepler (1571 — 1630)
também propendeu para a hipótese de uma conjunção estelar única.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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No post anterior referimos a tese do astrônomo Mark Thompson, da Royal Astronomical Society de Londres e apresentador científico da BBC, noticiada por "The Telegraph".

Veja: Astrônomo defende com computador a existência da estrela de Belém

Cabe ponderar que essa tese não é a única nos meios científicos.

Há anos, Werner Keller, num livro muito divulgado e que é digno de uma atualização com as novas descobertas científicas (Werner Keller, “E a Bíblia tinha razão”) recolhe afirmações avalizadas de cientistas de fama universal.

Pouco antes do Natal, no dia 17 de dezembro de 1603, o famoso matemático imperial e astrônomo da corte, Johannes Kepler (ao lado), estava em Praga observando, com seu modesto telescópio, a “conjunção” de Saturno e Júpiter na constelação de Peixes.

Kepler lembrou que segundo o rabino Abarbanel (1437-1508) para os astrólogos judeus o Messias viria por ocasião de uma conjunção de Saturno e Júpiter na constelação dos Peixes.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Por que Jesus nasceu em Belém?

Igreja da Natividade, local da Gruta de Belém
Igreja da Natividade, local da Gruta de Belém
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O imperador romano Augusto (63 a.C. – 14 d.C.) mandou fazer o que se chamava Breviarium Imperii (Estatística do Império).

Nessa estatística devia constar as riquezas de seu imenso reino: soldados, naves, reinos, províncias, tributos, impostos, doações...

A estatística obrigava, em consequência, o recenseamento da população.

Assim diz São Lucas em seu Evangelho, capítulo 2:
“1. Naqueles tempos, apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. (...)

“3. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.

“4. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi,

“5. para se alistar com a sua esposa, Maria, que estava grávida.

“6. Estando eles ali, completaram-se os dias dela.

“7. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. (São Lucas, 2, 1-7)

José e Maria tiveram que ir a Belém para recensear-se de acordo com a norma de que “todos os que habitassem fora das suas regiões nativas, voltassem ao seu recanto natal para cumprir a disciplina habitual do recenseamento”, contida por exemplo no decreto de Gaio Víbio Máximo, Prefeito do Egito, de 104 d.C.

No Oriente a pertença à família ou estirpe era de importância capital; todo cidadão sabia a que estirpe pertencia.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Buscas no paço do Herodes que martirizou os santos inocentes; e pai do Herodes que matou a S.João Batista e crucificou Jesus

Vista aérea de Herodium e das excavações.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O túmulo do rei Herodes I, o Grande, que ordenou a massacre dos inocentes visando matar o Menino Jesus, foi localizado em 2007 por pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Desde então vem sendo recuperadas salas e instalações desse palácio todo feito em estilo grego pagão.

O local leva o nome de Herodium e fica a poucos quilômetros de Jerusalém.

Esse cruel rei governou a Judéia até sua morte.

Tratava-se de um monarca impostor sustentado pelos romanos. Era idumeru (ou edomita), quer dizer descendente de Esaú.

Ele fez obras colossais como reformar e enriquecer o Templo (o mesmo do tempo de Nosso Senhor), para se granjear a simpatia do povo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Astrônomo defende com computador
a existência da estrela de Belém

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O astrônomo Mark Thompson, membro da Royal Astronomical Society de Londres e apresentador de astronomia no The One Show da BBC, realizou um estudo científico que explicaria a natureza da estrela que conduziu os Reis Magos até Belém, confirmando a narração do Evangelho de São Mateus.

Usando registros históricos e simulações de computador que permitem mapear a posição das estrelas e dos planetas em torno da data em que Jesus nasceu, Thompson defende que nessa época houve um evento astronômico incomum.

Segundo ele, entre setembro do ano 3 a.C. e maio do ano 2 d.C. houve três “conjunções” onde o planeta Júpiter e a estrela Regulus passaram perto um do outro no céu da noite estrelada.

A estrela Regulus ‒ literalmente “pequeno rei” ‒ está no plano dos planetas e não raro ela aparece próximo a um dos planetas.

1ª) Júpiter cruzou com Regulus por vez primeira seguindo seu movimento habitual rumo ao leste.

2ª) Depois apareceu revertendo o caminho e cruzou a estrela novamente, desta vez em direção oeste.

3ª) Por fim, mudando de direção mais uma vez, retomou sua direção normal rumo ao leste e cruzou com a estrela pela terceira vez.

Thompson, que apresentou na BBC o programa de astronomia Stargazing Live junto com o Professor Brian Cox, disse:

“Curiosamente no mundo da astrologia antiga, Júpiter é considerado o rei dos planetas e Regulus, que é a estrela mais brilhante da constelação de Leão, é considerada a rainha das estrelas.”

“Os três Reis Magos, acrescentou, eram considerados por alguns como sacerdotes zoroastristas, que eram astrônomos de renome na época, e quando o rei dos planetas passou tão perto da rainha das estrelas e em três ocasiões, devem ter julgado que era um fato muito significativo interpretável como o nascimento de um novo rei”.

Numerosas teorias de astrônomos do passado tentaram apresentar como explicação científica da estrela de Belém um cometa, uma supernova ‒ quando uma estrela explode e produz enormes quantidades de luz ‒ ou até um planeta.

Thompson disse que ele considerou “todas essas possibilidades” antes de chegar à sua conclusão.


As três conjunções de Júpiter e Regulus, tiveram lugar em 14 de setembro do ano 3 a.C., em 17 de Fevereiro e em 8 de maio do ano 2 d.C. Elas foram causadas pelo fenômeno astronômico chamado de movimento retrógrado aparente, em que um planeta parece que para na noite sua marcha normal rumo ao leste e ruma para o oeste, por um período de várias semanas.

Isso acontece porque os planetas exteriores do nosso sistema solar orbitam em volta do Sol a uma velocidade mais lenta que a Terra, e por isso nosso planeta, ocasionalmente os ultrapassa.

“O movimento retrógrado [no caso estudado] deu a impressão que Júpiter estava se movendo em direção oeste do céu e por isso os [Três Reis Magos] puderam segui-lo a partir da Pérsia”, explicou Thompson.

“Uma viagem de camelo até Israel teria levado cerca de três meses. Curiosamente, este é aproximadamente o mesmo tempo em que Júpiter parecia estar viajando na direção oeste”, disse

E concluiu: “Não cabe a mim dizer se realmente a Bíblia está certa ou errada, eu estou apresentando o mapa dos fatos que estão diante de mim”.

De fato, é esse o papel da ciência dentro de seus limites. E é natural concluir que confirma de modo sugestivo o relato evangélico.

O astrônomo inglês chegou a essas conclusões utilizando tecnologias computacionais avançadas e o saber acumulado pela ciência ao longo dos séculos.

Sua teoria, entretanto, não é inteiramente nova. Ela concorda com as apresentadas por outras autoridades da astronomia em épocas diversas.

Esta concordância reforça a teoria de Thompson.

De fato, a estrela de Belém sempre intrigou filósofos, teólogos e cientistas. E a ideia que a famosa estrela tinha sido resultante de uma conjunção de astros de primeira magnitude já foi defendida por respeitadas autoridades da astronomia.

Veja também: Dado essencial: houve o fenômeno astronômico denominado “estrela de Belém”

Quem foram os Reis Magos?


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

25 de dezembro é bem o dia em que Jesus nasceu

Natividade e Adoração dos Magos.
Ícone anônimo do século XVII, Museu Benaki, Atenas.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Natal católico é celebrado no dia 25 de dezembro. Mas há vozes, não raramente protestantes, falsamente ecumênicas ou anticristãs, que questionam a historicidade dessa data.

Elas arguem que na primeira metade do século IV a Igreja substituiu a celebração pagã Dies natalis Solis invicti (o deus persa/hinduísta/greco-romano Mitra?) por uma memória cristã do solstício de inverno (21-22 de dezembro).

E, portanto, não seria uma data histórica mas uma cristianização de uma festa pagã.

Essa posição é de molde a gerar confusão. E muitos gostarão ver a clareza do fundamento para comemorar a festa de Natal em 25 de dezembro.

Diferenças entre os calendários judeus e romano

A dificuldade tem azo na diversidade dos calendários.

Os romanos usavam o seu, o calendário juliano, que continha defeitos, mas que nós herdamos. Hoje é usado pelo mundo ocidental e pelos países civilizados após a sábia reforma do Papa Gregório XIII. Por isso é chamado de calendário gregoriano.

Mas, no tempo de Nosso Senhor, os judeus usavam um calendário completamente diferente, que era o calendário do Templo, aliás mais preciso que o romano daquela época.

Nos Evangelhos todas as datas são referidas usando esse calendário do Templo.

Quais são essas datas e ao que correspondem em nosso calendário?

O professor Pier Luigi Guiducci, historiador da igreja, esclareceu para a agência Zenit, as dificuldades da datação.

Mas, o professor apontou que a principal referência a uma data se encontra no Evangelho de São Lucas. Este Evangelho de Lucas traça a genealogia de Jesus até Adão, passando pela Anunciação e por seu nascimento virginal.

O arcanjo São Gabriel apareceu a São Zacarias e lhe anunciou que sua mulher Sara tinha concebido Très Riches Heures du duc de Berry, Musée Condé, Chantilly, século XV
O arcanjo São Gabriel apareceu a São Zacarias
e lhe anunciou que sua mulher Sara tinha concebido
Très Riches Heures du duc de Berry, Musée Condé, Chantilly, séc.XV
São Lucas narra que o anjo Gabriel anunciou ao velho sacerdote Zacarias que sua esposa Isabel, estéril e idosa, havia concebido um filho, destinado a preparar o povo para aquele que estava por vir (Lc 1,5-25).

E São Lucas acrescenta que esta miraculosa comunicação aconteceu seis meses antes da Anunciação a Maria (Lc 1,26-38).

Lucas sublinha que Zacarias pertencia à “classe [sacerdotal] de Abias” (Lc 1,5), e que a aparição de São Gabriel aconteceu enquanto “exercia a função de sacerdote na ordem de sua classe” (Lc 1,8).

Esse dado especifica uma data precisa de acordo com o calendário do Templo que os judeus conheciam perfeitamente.

A Lei Mosaica era muito exigente em matéria de dias e datas e os judeus observantes faziam questão de obedecê-las à risca.

Eles sabiam precisamente o dia que significavam e pautavam por eles os eventos fundamentais de sua vida, como sacrifícios, apresentação da criança ao Templo [prefigura do batismo], etc.

E no Templo de Jerusalém, os sacerdotes eram divididos em classes que deviam desempenhar os ofícios em 24 turnos (1Cr 24,1-7.19). Essas “classes”, se revezavam na ordem, porque deveriam prestar serviço litúrgico por uma semana, “de sábado a sábado”, duas vezes ao ano.

A versão hebraica do Antigo Testamento segundo o texto da Septuaginta indica que a classes sacerdotais, até a destruição do Templo (70 d.C) se revezavam conforme segue:

I) Iarib; II) Ideia; III) Charim; IV) Seorim; V) Mechia; VI) Miamim; VII) Kos; VIII) Abia; IX) Joshua; X) Senechia; XI) Eliasibe; XII) Iakim; XIII) Occhoffa; XIV) Isbosete; XV) belga; XVI) Emmer; XVII) Chezir; XVIII) Afessi; XIX) Fetaia; XX) Ezekil; XXI) Jaquim; XXII) Gamoul; XXIII) Dalaia; XXIV) Maasai.

E Zacarias pertencia ao “turno de Abia”, o oitavo.

Descobertas arqueológicas permitem precisar as datas

O arqueólogo escocês Sir William Ramsay, uma das maiores autoridades na matéria, escreveu que “Lucas é um historiador de primeira classe, não só suas afirmações sobre os fatos são dignas de fé... ele deve ser posto entre o grandíssimos historiadores”. Cfr “Luke the Evangelist”, Wikipedia.

A composição do Evangelho de Lucas aconteceu no início dos anos 60 d.C. Portanto São Lucas, escrevia quando o Templo ainda estava em atividade e todos os sacerdotes conheciam suas funções, classes e datas.

O rodízio referido se repetia duas vezes por ano e o evangelista não anota em qual dos dois turnos anuais Zacarias recebeu o anúncio do anjo.

Fac-símile dos documentos de Qumran.
Fac-símile dos documentos de Qumran.
Porém, em 1953 a especialista francesa Annie Jaubert, vasculhou o calendário do Livro dos Jubileus, [apócrifo hebraico do século II a.C.] e publicou os resultados no artigo: Le calendrier des Jubilées et de la secte de Qumran. Ses origines bibliques [em “Vetus Testamentum”, suppl. 3, 1953, pp. 250-264].

Por outro lado, Shemarjahu de Talmon, especialista da Universidade Hebraica de Jerusalém auscultou os documentos de Qumran que incluem o Calendário dos Jubileus.

Os resultados de Talmon foram publicados no artigo ‘The Calendar Reckoning of the Sect from the Judean Desert. Aspects of the Dead Sea Scrolls’ (em “Scripta Hierosolymitana”, vol. IV, Jerusalém 1958, pp. 162-199).

Os dois chegaram a conclusões convergentes. Assim Talmon foi capaz de precisar a sucessão da ordem de 24 turnos sacerdotais no Templo, no tempo de Jesus.

O estudioso judeu estabeleceu que o ‘turno de Abia’ acontecia a primeira vez, do dia 8 ao dia 14 do terceiro mês do calendário hebreu. A segunda vez acontecia de 24 a 30 do oitavo mês do calendário do Templo, período que correspondia à última semana de setembro no calendário romano.

Antonio Ammassari [‘Alle origini del calendario natalizio’ em “Euntes Docete” 45 (1992) pp. 11-16], mostra que São Lucas indicando o “turno de Abia” fornece a sucessão das datas históricas.

Cronologia da Encarnação e do Nascimento de Jesus

Desta maneira ficou esclarecido que o anúncio divino a Zacarias da concepção de São João Batista tem uma data histórica precisa: 24 de setembro do nosso calendário gregoriano do ano 7-6 a.C.

E o nascimento de São João Batista nove meses depois como escreve São Lucas (Lc 1,57-66), aconteceu o dia 23/25 de junho. É portanto, uma data histórica, explicou o professor Guiducci.

Natividade. Mestre do altar de Vyšší Brod, Galeria Nacional de Praga.
Natividade. Mestre do altar de Vyšší Brod, Galeria Nacional de Praga.
A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo “no sexto mês” depois da concepção de Isabel registrada no evangelho de São Lucas (1,28), aconteceu portanto no dia 25 de março. E é também uma data que tem certeza histórica.

Cumpridos os nove meses chegamos a 25 de dezembro.

O professor Pier Luigi Guiducci, historiador da igreja, conclui que “podemos dizer que é histórico o nascimento do Senhor a 25 de dezembro, 15 meses após o anúncio a Zacarias, nove meses após a Anunciação a Maria, seis meses após o nascimento de João Batista”.

O professor judeu Talmon baseado no calendário do Templo, reconstitui a mesma sucessão de fatos que conduzem a 25 de dezembro.

Portanto a festa nesse dia não foi fixada ao acaso e está fundada na tradição judeu-cristã da Igreja primitiva de Jerusalém, escreveu Vittorio Messori: “Jesus nasceu verdadeiramente em 25 de dezembro”, em Il Corriere della Sera, 9 de julho de 2003.

A circuncisão e a apresentação ao Templo concordam

Guiducci acrescentou que a data da circuncisão [prefigura do batismo] no dia 1º de janeiro também é histórica. Pois a prescrição de Moisés ordenava ser feita dentro do oitavo dia do nascimento. E o oitavo dia após o 25 de dezembro é o 1º de janeiro.

Apresentação do Menino Jesus ao Templo. Jean Bourdichon (1457 -- 1521),  J.P.Paul Getty Museum, Los Angeles
Apresentação do Menino Jesus ao Templo.
Jean Bourdichon (1457 -- 1521),  J.P.Paul Getty Museum, Los Angeles.
“A circuncisão, oito dias após seu nascimento, é uma data histórica”, conclui. “Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno” (Lucas 2:21).

Mais ainda, a apresentação da criança no Templo e a purificação da mãe devia acontecer dentro do 40º dia após o nascimento segundo lei de Moisés. Segundo o costume, a mãe se apresentava ao templo com uma vela acesa.

E os quarenta dias se cumprem na festa de Nossa Senhora da Candelária.

“Então, quarenta dias após o nascimento, dia 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor no Templo, é uma data histórica”, diz também o professor.

O censo de César Augusto

O evangelho de São Lucas menciona o censo ordenado pelo imperador César Augusto, como sendo a época em que aconteceu o nascimento do Redentor.

Augusto nomeia Quirino governador de Síria. Jean Bourdichon (1457 - 1521), Paris, BnF, manuscrit NAF. 21013, folio 65o.
Augusto nomeia Quirino governador da Síria.
Jean Bourdichon (1457 - 1521),
Paris, BnF, manuscrit NAF. 21013, folio 65o.
Na Palestina, o censo foi efetivado por Quirino prefeito da Síria (7-6 a.C).

No site Católicos online podemos ler o erudito trabalho de Dom Estêvão Bettencourt O.S.B., que esclarece os vários censos ordenados naquela época em anos diversos pelo imperador César Augusto.

O autor foi um dos mais destacados teólogos brasileiros do século XX, monge da Ordem dos Beneditinos do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro.

Num erudito, denso e sábio trabalho ele ordena e esclarece as intrincadas dificuldades a propósito dos vários censos na Terra Santa e a ele remetemos os leitores interessados. Veja: O Recenseamento sob César Augusto e Quirino (Lc 2, 1-5)

Comparando com rica documentação tirada dos historiadores Tito Lívio, Suetônio, Flávio José, Strabo e de inscrições antigas o douto autor confirma a historicidade do texto de Lucas.

O imperador Augusto três vezes promoveu o recenseamento dos cidadãos de seu Império entre 28 a.C. e 14 d.C.

E Quirino, que foi governador da Síria desde o ano 6 a.C até 12 d.C, foi o executor de um desses recenseamentos nas regiões confiadas à sua jurisdição, para sujeição e lealdade a César Augusto

Precisando o ano do Natal

O recenseamento referido por São Lucas efetivou-se cerca de um ano antes da morte de Herodes. Isso aponta o nascimento de Cristo no ano 5 a.C.

No cálculo atual, seria outono de 1 a.C, mas segundo explicou o professor Pier Luigi Guiducci, a partir do século VI houve um erro de cerca de seis ou cinco anos da data real do ano do nascimento do Senhor.

Apresentamos a continuação um destaque gráfico com a explicação deste erro por Dom Estêvão Bettencourt OSB.

O ano do nascimento de Cristo esclarecido por Dom Estêvão Bettencourt OSB

No século VI o monge Dionísio o Exíguo ou Pequeno (+556), desejoso de calcular a data de Páscoa para os anos subsequentes, conjeturou o ano se baseando em datas históricas romanas e chegou ao ano que ele indicou como sendo o do nascimento de Cristo e o inicio da era cristã, ainda hoje em voga.

Dionísio, porém, enganou-se.

Herodes recebe os três Reis Magos. British Library Royal 1 D X, f2.
Herodes recebe os três Reis Magos. British Library, Royal 1 D X, f2.
Dionísio não levou em conta a noticia consignada por Mt 2,1: Jesus nasceu antes do falecimento do rei Herodes.

Ora Herodes passou doente os últimos meses de sua vida em Jericó, ao passo que os Magos ainda o encontraram em Jerusalém (cf. Mt 2,3).

Disto se conclui que a visita destes personagens a Herodes se deve ter dado, pelo menos, por volta do ano 5 a.C.

Note-se outrossim que Herodes mandou matar todos os meninos que tivessem até dois anos de idade: supunha, portanto, que Jesus pudesse ter nascido havia dois anos.

Admitindo que o monarca haja feito um cálculo largo, teremos que recuar um ano ou mais para além do ano 5º a. C., a fim de chegar ao ano em que Cristo nasceu.

É o que leva os melhores exegetas a admitir que Jesus tenha vindo ao mundo por volta do ano 6° antes da era cristã, ou seja, cerca de 748 da era de Roma.

(Autor: Dom Estêvão Bettencourt, PERGUNTE E RESPONDEREMOS 003 – março 1958)


Outras datas chaves solidamente definidas

A pregação de João Batista teria começado no ano XV do império de Tibério César (cerca de 27-28 d.C).

São Lucas também registra que “Jesus, quando começou o seu ministério, tinha cerca de 30 anos” (Lc 3,23). A relação entre a pregação dos dois é preciosa para acertar as datas.

A principal datação histórica sobre a vida do Senhor está centrada no evento-chave: a sua morte ocorreu às 15 horas da sexta-feira, 7 de abril de 30 d.C.

E isto é astronomicamente certo. Pois São Lucas nos ensina que antes de Nosso Senhor lançar um grande brado e entregar a alma “em toda a terra houve trevas”.

44. Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona.

A Ressurreição que aconteceu na madrugada de domingo, 9 de abril do ano 30 d. C.
A Ressurreição aconteceu na madrugada de domingo 9 de abril do ano 30 d.C.
45. Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio.

46. Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou. (São Lucas, 23, 44-45

E isto se deu por um eclipse de sol acontecido nesse dia e nessa hora, não tendo acontecido outro eclipse igual em algum outro ano próximo, verificável por cômputos astronômicos, inclusive digitais.

Define-se a partir daqui outras datas históricas, notadamente a Ressurreição que aconteceu na madrugada de domingo, 9 de abril do ano 30 d. C., data astronômica também certa, portanto.