segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Por que muda o calendário todo ano? A Igreja e a astronomia

Obelisco de São Pedro também é agulha de imenso relógio solar
Obelisco de São Pedro também é agulha de imenso relógio solar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Cada novo ano tem início num momento muito preciso do relógio.

A partir do primeiro segundo do ano, a imensa maioria dos homens vai ritmar sua vida pelo calendário que recomeça como nos anos anteriores, porém com algumas importantes datas mudadas.

A data da Páscoa muda a cada ano, impondo consigo mudanças gerais, por exemplo, as datas de Carnaval. Nos anos bissextos fevereiro tem um dia a mais.

O calendário com suas mudanças é aceito por todos. Todo o mundo civilizado intui que os critérios usados para as mudanças são sábios, úteis e benéficos.

Contudo, tais critérios são desconhecidos da imensa maioria que se pauta por eles.

A que se deve essa mudança tão grande, constante, porém certa e bem recebida, do calendário?

Poucos têm disso uma ideia clara.

Menos ainda de que foi a Igreja que definiu quanto durava um ano e em qual dia do ano viviam os homens.

A Igreja Católica também definiu todas as mudanças que deveriam ser introduzidas no calendário até o fim do mundo de maneira a harmonizar a atividade dos homens com o movimento da Terra, do Sol, da Lua e das estrelas.

Obelisco e, no chão, o meridiano e uma das placas
Praça de São Pedro no Vaticano: imenso relógio solar

Menos numerosos ainda são os que sabem que nas pedras que pavimentam a Praça de São Pedro, em Roma, está incrustado um relógio e um calendário simples mas imenso, onde se podem conferir os momentos exatos do tempo na Terra.

Esta espécie de relógio princeps tem uma só agulha e está diante dos olhos de todos.

Trata-se do obelisco de 83 pés de altura, instalado no meio da famosa Praça dedicada ao Príncipe dos Apóstolos.

Ele foi conquistado pelos antigos romanos e adotado pela Igreja, que o despojou de seus significados pagãos.

Sim, o obelisco no meio da Praça de São Pedro é um ponteiro solar que indica com toda precisão o meio-dia e os solstícios (os dias mais longos e curtos do ano em 21/22 de junho e 21/22 de dezembro).

Portanto, o início do inverno e do verão no Hemisfério Norte, e em sentido inverso, no Sul.

O momento exato em que o dia atinge sua máxima ou mínima duração pode ser verificado no meridiano de granito e nas marcas de mármore incrustadas na Praça, sobre as quais passam inúmeros turistas sem perceberem do que se trata.

A sombra da ponta do obelisco bate em Leo em 23 de julho e em Gémeos em 22 de maio
Em 21 de dezembro, a sombra do obelisco atinge o disco de mármore mais longínquo da base do obelisco.

No 21 de junho, solstício de verão, a sombra do obelisco egípcio adotado pela Igreja atinge o disco mais próximo de sua base, sinal que é o dia mais longo do ano (no Hemisfério Norte, é claro; para o Sul vale o inverso).

Quando a sombra da ponta do obelisco atinge outros cinco discos na praça, significa que o sol entra num novo signo do zodíaco.

Bem entendido, o zodíaco sem nenhuma alusão supersticiosa, mas segundo seu verdadeiro sentido: cada uma das partes em que se divide o céu visível.

A linha de granito que funciona como meridiano começa na fonte central da praça (em cujo centro está o obelisco) e vai na direção da janela do Papa, como a significar que o mundo deve acertar os ponteiros com o sucessor de Pedro.

Papa Gregório XIII definiu o calendário universal

Marca do solisticio de verão e início de Câncer
E de fato foi o Papa Gregório XIII (1502-1585) quem deu forma definitiva ao calendário utilizado pelo mundo ocidental e foi o responsável pelas mudanças mencionadas no início.

Em lembrança desse Papa, nosso calendário também é chamado de gregoriano.

A Igreja Católica sempre esteve cuidadosamente engajada na astronomia, visando especialmente definir os tempos litúrgicos e os horários certos das orações, como o Ângelus.

Esse interesse provém de antiquíssimas tradições que incluem as dos três Reis Magos, assim chamados por serem voltados para os fenômenos celestes. Confira: Quem foram os Reis Magos?

E também está ligado à expectativa escatológica do dia em que Cristo voltará em pompa e majestade para encerrar a História e julgar os vivos e os mortos.

A data da Páscoa determina a Semana Santa, a Quaresma, e, portanto, o Carnaval, que precede a mesma, bem como o desenvolvimento de todo o ano litúrgico.

A Páscoa é a lembrança da saída do Egito. Moisés ordenou que se fizesse numa noite de lua cheia, que foi a primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte.

Nosso Senhor Jesus Cristo celebrou a Páscoa com seus Apóstolos de acordo com o costume dos judeus no Antigo Testamento, como refere o Evangelho.

No ano 325 da era cristã, a festa da Páscoa foi marcada pelo Concílio de Nicéia para o domingo que se seguia à primeira lua cheia após o 21 de Março (equinócio vernal).

Porém, o calendário usado no tempo desse Concílio já não batia com as estações. Era o Calendário Juliano.

Por fim, a reforma do Papa Gregório XIII fixou a data certa do início da primavera (Hemisfério Norte) no verdadeiro 21 de março, mandando pular vários dias para corrigir o erro de cálculo em que caíram os romanos e que foi aumentando nos séculos posteriores.

Confira: Como o Papa Gregório XIII elucidou e corrigiu o erro do calendário

Jato de luz solar batendo no relógio de Santa Maria degli Angeli
A chamada Igreja Ortodoxa, cismática que recusa a autoridade do Papa, não quis ligar para os argumentos científicos que apoiam a reforma gregoriana.

Ela usa o chamado calendário juliano sancionado pelo célebre general romano Júlio César, que entrou em vigor no dia 1 de janeiro do ano 45 a.C. e depois foi modificado pelo imperador Augusto. Também é utilizado pelos cristãos ortodoxos de diversos países.

E ainda se debate nas imprecisões do velho calendário romano. As grandes festas religiosas como o Natal e a Páscoa andam sempre desatualizadas e não coincidem com a data certa.

O relógio astronômico da igreja de Santa Maria degli Angeli, Roma

O relógio solar da Praça de São Pedro não é o único na Roma dos Papas.

A aparição dos relógios mecânicos não adiantou grande coisa, pois eram bastante imprecisos, e foram feitos vários relógios aproveitando a regularidade do movimento do sol.

Por isso, no século XVIII, o Papa Clemente XI encomendou ao astrônomo Francesco Bianchini a instalação de um meridiano no chão da Basílica de Santa Maria degli Angeli, em Roma

Este meridiano é muito mais sofisticado: servia para observações altamente precisas do céu e resolvia complexos problemas astronômicos.

John Heilbron, professor emérito de História das Ciências na Universidade de Califórnia – Berkeley, explica que o meridiano no chão de Santa Maria degli Angeli “pode fazer coisas que não se conseguia com os telescópios da época”, como calcular com exatidão a inclinação do eixo da Terra.

Heilbron escreveu o livro “O Sol na Igreja: as catedrais vistas como observatórios solares” (“The Sun in the Church: Cathedrals as Solar Observatories”, Harvard University Press, 2001).

Relógio solar de Santa Maria degli Angeli
Com esse meridiano, o Papa Clemente confirmou a exatidão da reforma gregoriana do calendário, e especialmente o cálculo da Páscoa, que os protestantes obstinavam-se a contestar.

O calendário aperfeiçoado pelo Papa Gregório XIII em 1582 é o usado atualmente, donde o nome Gregoriano.

Os atuais relógios atômicos e outros instrumentos de altíssima sofisticação permitiram obter medições quase infinitesimais.

Porém, o calendário da Igreja revelou-se tão apurado que os relógios atômicos só previram lhe fazer uma correção... mas para ano 4500: o aumento de um dia!

Semana de sete dias: lembrança incontornável da Criação

O calendário envolve questões religiosas que desafiam a ciência. O Pe. Juan Casanovas, SJ, astrônomo solar e historiador da astronomia, mostra que dividir o ano em semanas de sete dias, em teoria não ajuda a matemática.

E explica: “Se V. divide o número de dias do ano por sete, sempre fica sobrando um dia e nos anos bissextos dois dias”.

Santa Maria degli Angeli: cientista confere dados
Porém, acrescenta o sacerdote-cientista, ninguém quer saber de renunciar à semana de sete dias.

Até os calendários hebreu e muçulmano, embora radicalmente diferentes, estão baseados numa semana de sete dias.

A razão da divisão em sete está no Gênese e na ordem posta por Deus na Criação do Universo.

Essa afinidade profunda da alma humana com a série de sete dias como que está impressa nos ritmos da natureza humana.

O Prof. Heilbron também mostrou que as tentativas de fazer calendários “mais racionais” não somente foram mal sucedidas, mas também continham erros grosseiros.

O mais característico desses calendários desastrados foi o excogitado pela Revolução Francesa.

Ele instituiu semanas de dez dias (as “decadi”). Três “decadi” formavam um mês. Cada dia tinha 10 horas e cada hora tinha 100 minutos.

Dói pensar.

A sabedoria da Igreja Católica resplandece no caso com manifesto benefício e estímulo para a ciência e a boa ordem da vida.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A conversão do hebreu Ratisbonne: foi além do que podem explicar as ciências humanas

Pe. Afonso Ratisbonne, rico banqueiro judeu convertido por Nossa Senhora se fez padre
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Um dos fenômenos mais específicos da vida religiosa é o da conversão interior, espiritual, que para ser autêntica e sincera só pode acontecer pela graça de Deus.

É precisamente por causa disto que a conversão religiosa não é suscetível de uma explicação das ciências físicas.

Os tentativos de dar uma explicação por vias psicológicas que deliberadamente abstraem do fator divino jamais produziram algo convincente ou concludente.

Tal vez a conversão do hebreu banqueiro Afonso Ratisbonne seja uma das mais rumorosas dos últimos séculos.

Seu caso é digno de especial análise pois foi acompanhado muito de perto por várias pessoas qualificadas para descrevê-la.

É para compreender essa ação de Deus nas almas que reproduzimos a continuação a longa descrição desse caso histórico, tirada do blog "Luzes de Esperança".

Um jovem judeu, de uma família de banqueiros de Estrasburgo, de notável projeção social pelas riquezas e pelo parentesco com os banqueiros Rothschild, pelo meio-dia do dia 20 de janeiro de 1842, andava despreocupado, na aparência, por uma rua do centro histórico de Roma.

Seu nome era Afonso Ratisbonne.

Seu irmão mais velho, Teodoro, em 1827 converteu-se ao catolicismo e se fez sacerdote, rompendo com a família.

As esperanças dos Ratisbonne se concentraram então em Afonso, nascido em 1814.

Sant'Andrea delle Frate, Roma: a igreja do milagre
Ele completara o curso de Direito e pensava em casar com uma jovem judia. Contava 27 anos e, antes de casar, fez uma viagem pela Itália e pelo Oriente.

Afonso era judeu de religião, embora não praticante, e nutria pela Igreja Católica entranhado ódio, sobretudo pelo ressentimento da família por causa da conversão do primogênito.

Ele dizia que se algum dia mudasse de religião far-se-ia protestante, jamais católico.

Em Roma, visitou por curiosidade cultural algumas igrejas católicas, e saiu mais consolidado em seu anticatolicismo.

Encontrou também um antigo colega seu, de nome Gustavo de Bussières. Gustavo era protestante e tentava convencer Afonso de suas convicções religiosas, porém sem sucesso.

Na casa de Gustavo, Afonso conheceu um irmão deste, o Barão Teodoro de Bussières, havia pouco convertido ao catolicismo e amigo íntimo do Pe. Teodoro Ratisbonne. Tudo isso o tornava sumamente detestável aos olhos de Afonso.

Na véspera de sua partida da Cidade Eterna, Afonso foi deixar um cartão de visitas na casa do Barão, como ardil de despedida e assim evitar um encontro.

Porém, o criado italiano do Barão não entendeu o francês e o fez entrar no salão. Na conversa, o Barão procurou atraí-lo para a Fé católica.

Conseguiu apenas, e com muita dificuldade, que Afonso Ratisbonne aceitasse uma Medalha Milagrosa e prometesse copiar o “Lembrai-Vos”, bela oração a Nossa Senhora.

O judeu não cabia em si de raiva, pela ousadia das iniciativas do Barão, mas resolveu tomar tudo com civilidade. Ele pensava escrever um livro com o relato da viagem onde o Barão seria um personagem singular.

A 18 de janeiro, faleceu em Roma um amigo íntimo do Barão de Bussières, o Conde de La Ferronays, ex-embaixador da França junto à Santa Sé e homem de grande virtude e piedade.

Na véspera da morte, La Ferronays conversou com Bussières sobre Ratisbonne e rezou cem vezes o “Lembrai-Vos” por sua conversão, a pedido de Bussières.

Esses eram os antecedentes em volta de Afonso Ratisbonne naquele dia 20 de janeiro.

Mas, eis que na rua encontra o Barão de Bussières que estava indo para a Igreja de Sant'Andrea delle Fratte para combinar as exéquias do falecido conde de La Ferronays.

Ratisbonne decidiu acompanhá-lo, mas de mau humor, criticando violentamente a Igreja e zombando das coisas católicas.

Na igreja, o Barão entrou brevemente na sacristia para tratar do assunto das exéquias.

Afonso ficou percorrendo uma das naves laterais, impedido que estava de passar para o outro lado da igreja, pelos preparativos em curso para as exéquias do Conde na nave central.

Busto de Ratisbonne lembra a conversão milagrosa
E eis o que aconteceu segundo o diário do próprio Barão Teodoro de Bussières:

Quinta-feira, 20 de janeiro de 1842:

Ratisbonne não deu sequer um passo rumo à verdade, sua vontade permanece como sempre, ele não deixa de ridiculizar tudo e parece se importar somente das coisas terrenas.

“Perto do meio-dia ele entrou em um café na Piazza di Spagna para ler os jornais.

Lá ele encontrou o meu cunhado, Edmund Humann, eles conversaram sobre as notícias do dia, com uma irreverência e uma facilidade que excluía qualquer preocupação séria.

Parece que a Providência queria dispor as coisas de modo a excluir até a possibilidade de dúvida quanto ao estado de espírito de Ratisbonne pouco antes de a graça inesperada de sua conversão.

Cerca de meio-dia e meia, saindo do café, ele encontrou seu amigo de escola, o barão A. de Lotzbeck e começou a conversar com ele sobre os assuntos mais frívolos.

Ele falou da dança, do prazer, da esplêndida festa dada pelo príncipe T.

“Em verdade, se alguém tivesse dito a ele naquele momento: dentro de duas horas você vai ser católico, ele certamente o teria julgado louco.

Por volta de uma hora. Eu tinha de combinar algumas coisas na igreja de S. Andrea delle Fratte para a cerimônia fúnebre do dia seguinte. Mas encontrei Ratisbonne descendo pela Via Condotti.

Ele aceitou vir comigo, iria me aguardar alguns minutos e, em seguida, iríamos passear juntos. Entramos na igreja. Ratisbonne percebeu os preparativos para um funeral, e perguntou para quem seria feito.

“Para um amigo que acabo de perder, e que eu amava muito, M. de Laferronnays”, respondi.



Ele então começou a andar pela nave e seu olhar frio e indiferente parecia dizer:

“Esta é certamente uma igreja muito feia.”

“Deixei-o do lado da epístola na igreja, à direita de um pequeno compartimento destinado a receber o caixão, e fui para o mosteiro.

Veja vídeo
Igreja do Miracolo
Sant'Andrea delle Frate, Roma
Eu tinha apenas algumas palavras para dizer a um dos frades, porque eu queria uma tribuna preparada para a família do falecido. Eu me demorei não mais do que 10 ou 12 minutos.

Quando voltei para a igreja, de início não achei Ratisbonne. Mas logo o vi ajoelhado em frente ao altar lateral de São Miguel Arcanjo. Fui até ele, toquei-lhe três ou quatro vezes sem que ele percebesse minha presença.

Finalmente, ele se virou para mim, o rosto banhado em lágrimas, com as mãos juntas, e me disse com uma expressão que nenhuma palavra vai render: “Oh, como este senhor [M. de Laferronnays] orou por mim!”

Fiquei petrificado de espanto, naquele momento senti aquilo que as pessoas sentem na presença de um milagre.

“Eu levantei Ratisbonne, acompanhei-o, ou melhor, quase o levei para fora da igreja, e perguntei-lhe qual era o problema, e onde ele queria ir.

“Leva-me onde quiserdes”, respondeu ele, “depois que eu vi, eu obedeço”.

Insisti para que me explicasse o que queria dizer, mas não conseguia por causa de uma emoção forte demais. Ele tirou de seu peito a Medalha Milagrosa, e a cobriu de beijos e lágrimas.

Eu tentei trazê-lo de volta para si, e não obstante as minhas insistentes perguntas, não recebia dele senão exclamações interrompidas por soluços:

“Oh, como eu sou feliz! Oh, como é bom o Senhor! Que plenitude de graça e felicidade! Como é lamentável o lote daqueles que não sabem!” Então ele começou a chorar ao pensar em hereges e descrentes.

Finalmente, ele se perguntou se não estava louco.

“Mas não”, acrescentou ele, “eu estou em meu perfeito juízo. Meu Deus, meu Deus, eu não estou louco, não. Todo mundo sabe que eu não sou louco!”

Quando a delirante agitação foi se acalmando, com um olhar sereno e eu diria quase transfigurado, Ratisbonne estendeu seus braços em volta de mim e me abraçou, me pediu para levá-lo a um confessor.

Queria saber quando ele poderia receber o Santo Batismo sem o qual ele não podia viver, suspirava de felicidade pelos mártires, cujos tormentos ele tinha visto retratados nas paredes da igreja de S. Stefano Rotondo.

Ele me disse que não poderia dar explicação alguma sem a permissão de um padre, “porque aquilo que eu tenho a dizer”, acrescentou, “é algo que não posso dizer nem devo dizer senão de joelhos”.

Levei-o imediatamente à igreja do Gesù para ver o Pe. Villefort, que he pediu para se explicar. Então Ratisbonne, estendeu a medalha, beijou-a, mostrou-nos, e exclamou: “Eu a vi, eu a vi!”

E a emoção voltou a embargá-lo. Mas logo ele recuperou a calma e se exprimiu nestes termos:

Eu passei um breve tempo na igreja, quando de repente eu senti uma agitação de espírito indescritível. Ergui os olhos: diante de mim o prédio todo tinha desaparecido, só tinha uma capela, por assim dizer, onde se concentrou toda a luz.

E no meio desse esplendor apareceu para mim em pé sobre o altar, grande, cheio de majestade e de doçura, a Virgem Maria, tal como ela é representada na minha Medalha.

Uma força irresistível me atraiu para ela. A Virgem me fez sinal com a mão que deveria ajoelhar e, em seguida, ela parecia dizer: assim esta bem! Ela não falou uma palavra, mas eu entendi tudo.

Ratisbonne fez esta breve narração parando com freqüência como para tomar fôlego e reprimir a emoção que tomava conta dele. Ouvimos com uma reverência sagrada, misturada com alegria e gratidão, maravilhados com a profundidade das vias do Senhor e os tesouros inefáveis de Sua misericórdia.

Uma frase nos impressionou mais do que as outras pela profundidade do mistério:

“Ela não falou uma palavra, mas eu entendi tudo”.

Afonso Ratisbonne tornou-se sacerdote
e apóstolo da conversão dos judeus
Aliás, agora basta ouvir a Ratisbonne. A fé católica emana de seu coração como um perfume precioso do vaso que a contém, mas não pode confiná-la. Ele falou da Presença Real como um homem que acreditava que com toda a energia de seu ser, mas a expressão é muito fraca, ele falava como aquele que teve uma percepção direta.

Ao deixar o Padre Villefort, fomos dar graças a Deus, em primeiro lugar em Santa Maria Maggiore, nossa cara basílica da Santíssima Virgem, e depois na de São Pedro.

É impossível transmitir uma idéia do transporte de Ratisbonne quando esteve nessas igrejas.

“Ah”, dizia ele, apertando minhas mãos, “agora eu entendo o amor dos católicos por suas igrejas, e a devoção que os leva a embelezá-las e adorná-las! Como é bom estar aqui! Querer-se-ia nunca deixá-las! Aqui não estamos mais na terra, é o vestíbulo do céu ...”

Diante do altar do Santíssimo Sacramento, a Presença Real de Jesus o impressionava de tal maneira que ele ficaria quase fora de si se não fosse afastado logo e levado para longe. Ficava aterrorizado pela idéia de comparecer perante o Deus vivo maculado como estava pelo pecado original. Apressou-se a se refugiar na capela da Virgem.

‒ “Aqui”, ele me disse: “não posso ter medo. Sinto-me sob a proteção de uma misericórdia ilimitada”.

Ele rezou com grande fervor diante do túmulo dos santos Apóstolos. A história da conversão de Paulo, que eu lhe narrei, o fez derramar lágrimas abundantes.

Ele ficou admirado pelo poderoso afeto, aliás póstumo, para usar sua própria expressão, que o unia a M. de Laferronnays, e pretendia passar a noite ao lado de seus restos mortais, pois, dizia ele, este era seu dever imposto pela gratidão.

Mas o padre Villefort, vendo que ele estava exausto de fadiga, contrariando este desejo piedoso, aconselhou-o prudentemente a não permanecer além das 22 horas.

Em seguida, Ratisbonne nos disse que na noite anterior não havia sido capaz de dormir, que ele tinha sempre diante dos olhos uma grande cruz, de uma forma peculiar, sem a imagem de Cristo que ficava constantemente diante dele.

‒ “Eu fiz”, disse ele, “esforços incríveis para afastar essa visão, mas todos foram infrutíferos”.

Algumas horas depois, observando casualmente o reverso da Medalha Milagrosa, ele reconheceu a mesma Cruz!

Afonso (em pé) e seu irmão Teodoro, sacerdotes
Enquanto isso, eu estava muito impaciente querendo voltar a ver a família Laferronnays. Eu levava notícias consoladoras para eles no momento em que se despediam dos restos venerados daquele que eles choravam.

Entrei na câmara mortuária em um estado de agitação, quase se poderia dizer de alegria, que chamou a atenção de todos os presentes porque compreenderam que eu tinha algo gravemente importante para comunicar. Todos eles me acompanharam até uma sala adjacente, e eu às pressas relatei o acontecimento.

Eu tinha trazido boas novas do Céu. As lágrimas de dor em um momento foram transformadas em lágrimas de gratidão. Aqueles pobres corações aflitos podiam agora suportar com perfeita resignação cristã o mais cruel dos sacrifícios que cobra a morte, o último adeus aos restos daquele que eles tinham amado...

Mas eu estava ansioso para voltar a ver o filho que o Céu tinha acabado de me dar. Ele me implorou para não deixá-lo sozinho porque precisava de um amigo em cujo coração derramar as profundas emoções daquele dia.

Perguntei-lhe uma e outra vez as circunstâncias da visão milagrosa. Ele próprio não sabia explicar como ele passou do lado direito da igreja para a capela que está à esquerda, sendo que entre a capela e o local onde estava se encontravam os preparativos para o serviço fúnebre.

Busto no local da conversão.
Tudo o que ele sabia era que se viu de repente de joelhos, prostrado diante desse altar.

De início, ele pôde ver claramente a Rainha do Céu em todo o esplendor de sua beleza imaculada, mas seu olhar não conseguiu suportar o brilho daquela luz divina.

Três vezes ele tentou olhar mais uma vez a Mãe de Misericórdia, e três vezes só foi capaz de elevar seus olhos até suas mãos abençoadas, a partir das quais brotava uma torrente de graças em forma de feixes luminosos.

‒ “Ó meu Deus”, exclamou ele, “mas eu, que meia hora antes estava blasfemando ainda! Eu, que sentia um ódio tão violento contra a religião católica!...

“Mas todos os que me conhecem sabem muito bem que, humanamente falando, eu tinha os mais soberbos motivos para continuar a ser um judeu... Minha família é judaica, minha noiva é judia, meu tio é um judeu...

“Ao me tornar católico, eu rompo com todos os interesses e todas as esperanças que tenho na terra e, entretanto, eu não sou louco, vê-se claramente que eu não sou louco, que eu nunca fui louco!

“Portanto, devem acreditar em meu testemunho”.

(Fonte: Theodore de Bussières, “La conversione di Alfonso Maria Ratisbonne”, Ed. Amicizia Cristiana, 2008, Chieti, 63 p., páginas 18-25.)