segunda-feira, 1 de março de 2021

Lápide de 1.400 anos fala da fé incipiente na Imaculada Conceição

Lápide funerária glorifica Imaculada Conceição há 1.400 anos. Nitzana National Park.Credit David Palmach
Lápide funerária glorifica Imaculada Conceição há 1.400 anos.
Nitzana National Park.Credit: David Palmach
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







No deserto de Negev, em Israel perto da fronteira com o Egito, arqueólogos descobriram uma lápide bizantina com a inscrição “Abençoada Maria, que viveu uma vida imaculada” proveniente do túmulo de uma mulher que habitou na área de Nitzana há 1.400 anos.

A descoberta se juntou a outras feitas em escavações em túmulos da região que pertenceram a cristãos e foram enterrados em igrejas locais e cemitérios. Foi noticiada pelo jornal israelense “Haaretz”.

A inscrição está em grego antigo do final do período bizantino e inclui a data da morte da piedosa mulher: 9 de fevereiro.

Ela é mais uma das demonstração histórica da veneração cristã a Nossa Senhora, enfatizando especialmente o fato de carecer de mancha do pecado, que nos leva à ideia de sua Imaculada Conceição. Cfr. Aleteia

A profissão de fé na vida imaculada da Virgem em tão remotos tempos e em local para nós tão afastado não é desprovida de importância.

Quando a Igreja vai proclamar um dogma solene, como é o da Imaculada Conceição, e ainda mais, como foi neste caso, uma doutrina de Fé que está contida nas Sagradas Escrituras, mas não é patentemente afirmada, a Igreja pondera com sabedoria diversos fatores.

Um deles, e dos mais importantes, é analisar se a doutrina que vai ser proclamada dogmática foi professada sempre pelos fiéis – ou por muito tempo continuado, qualquer coisa como 400 anos ininterruptos segundo bons Doutores.

Uma doutrina nova, adventícia, passageira, defendida com interrupções não está em condições de ser proclamada dogma pelo Magistério Pontifício.

A polêmica pela infalibilidade da Imaculada Conceição demorou séculos, havendo até bons doutores que não a apoiavam. Quando as últimas hesitações foram dissolvidas e o grande Pio IX proclamou o dogma em 8 de dezembro de 1854:

O Beato Papa Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição, detalhe. Francesco Podesti, Sala da Imaculada, Museus Vaticanos
O Beato Papa Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição, detalhe.
Francesco Podesti, Sala da Imaculada, Museus Vaticanos

“para honra da Santa e Indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da Fé Católica e para a propagação da Religião Católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor Nosso, dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e Nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, por conseguinte, ser crida firme e inabalavelmente por todos os fiéis”.


Bombeiro deposita coroa de flores na coluna da Imaculada em Roma
Bombeiro deposita coroa de flores na coluna da Imaculada em Roma
Para esta solene definição a Igreja havia ponderado se essa verdade era professada pelo universo dos fiéis antes mesmo da proclamação. Assim investigou e concluiu de modo positivo.

Agora o achado da pedra funerária em questão vem a confirmar a prudência e o acerto do Magistério Pontifício: havia 1.400 anos que essa verdade era professada embora em termos incipientes! Mais uma prova que a Igreja tinha razão!

A pedra do século VI ou início do VII d.C., foi encontrada pelos inspetores da Nature and Parks Authority que limpavam o Parque Nacional de Nitzana.

David Palmach, diretor do Nitzana Educational Center, identificou a inscrição, fotografou-a e relatou-a aos representantes da Autoridade de Antiguidades de Israel, órgão máximo do país em matéria arqueológica.

A Dra. Leah Di Segni da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em inscrições gregas antigas, decifrou a escrita.

A lápide de 25 centímetros de diâmetro se junta a outras de cristãos enterrados em igrejas e cemitérios fora de Nitzana, e tiradas a luz por pesquisadores da Universidade Ben Gurion do Negev.

Ruínas da cidade de Nitzana. Foto National Park
Ruínas da cidade de Nitzana. Foto: Nitzana National Park
Nitzana é um local chave para estudar a transição entre os períodos bizantino e islâmico inicial, disse o Dra. Tali Erickson-Gini da autoridade em antiguidades.

“Durante os séculos V e VI EC, Nitzana teve aldeias e assentamentos. Entre outras coisas, uma fortaleza militar, além de igrejas, um mosteiro e uma pousada à beira da estrada que servia aos peregrinos que iam ao mosteiro Santa Catarina, no Monte Sinai”, disse ela.

De acordo com Erickson-Gini, Nitzana foi habitada por cerca de 1.300 anos antes de ser abandonada no século X. O local foi esquecido, mas redescoberto na década de 1930.


Eran Doron, chefe do Conselho Regional de Ramat Negev, disse que “Acredita-se que a inscrição pertença a uma mulher de status no período bizantino, quando Nitzana era uma região florescente”


Vídeo: Lápide de 1.400 anos aponta para a Imaculada Conceição
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A face do Santo Sudário foi se revelando nos séculos

Santo Sudario à direita. Rosto de Cristo em Sevilha, à esquerda, da Irmandade da Lançada, (artista Juan Manuel Miñarro)
Santo Sudário à direita. Rosto de Cristo em Sevilha, à esquerda,
(da Irmandade da Lançada, artista Juan Manuel Miñarro)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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sócio do IPCO,
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As ciências históricas estudam incógnitas por vezes mais importantes que as indagadas pelas ciências especializadas na matéria respectiva.

Uma das mais surpreendentes e singulares dessas incógnitas está contida no rosto do Santo Sudário, mas dela se fala pouco infelizmente.

Como pudemos tratar nesta página o divino rosto de Jesus Cristo foi sendo elaborado por artistas ou simples fiéis com base em sentimentos religiosos ao longo dos milênios.

Nesse imenso período, a divina face foi sendo pintada, esculpida, etc. cada vez mais parecida com o rosto que haveria de se revelar no santo Sudário de Turim no século XIX por obra de uma fotografia tirada com equipamentos que hoje podem estar num museu!

Suponha-se que o universo dos fiéis ao longo de 1900 anos tivesse elaborado uma imagem de Cristo que depois não bateria com Aquela impressa no lenço que envolveu Jesus e que a foto de Secondo Pia captou.

Ter-se-ia criado uma crise horrível e inevitável: a Igreja – clérigos e leigos – teria errado em massa durante milênios forjando uma imagem errada de Cristo !!!

Baste considerar o fabuloso descompasso entre as imagens de Cristo excogitadas pela arte moderna e contemporânea para perceber que essa arte pouco ou nada tem de verdadeiramente cristão e está fora de todo e qualquer rumo histórico.

Essa crise teria levado à conclusão de que a Igreja Católica é falsa, que Cristo não é o Cristo da Igreja, ou qualquer outra conclusão disparatada.

Porém quando o advogado e fotógrafo amador Secondo Pia tirou a primeira foto do Santo Sudário com incipiente tecnologia, o rosto que apareceu correspondia à imagem que a graça tinha soprado nas almas durante XIX séculos!!!

Há muitos outros aspectos a considerar, inclusive de um ponto de vista espiritual e não apenas científico ou tecnológico.

Já nos primeiros séculos os artistas cristãos imaginaram o rosto de Cristo com acerto sem te-lo conhecido. Santo Sudário e Cristo Pantocrator do mosteiro de Santa Catarna no Sinai, século V
Já nos primeiros séculos os artistas cristãos imaginaram o rosto de Cristo com acerto sem tê-lo conhecido.
Santo Sudário e Cristo Pantocrator do mosteiro de Santa Catarina no Sinai, século V

Vejamos como o caso é tecnica e psicologicamente complexo.

Vejamos a complexidade para os que acreditam na face adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos historiadores da arte ainda que sem fé.

Na sua perfeição natural, uns e outros, conheceriam os princípios de toda perfeição moral e material contida no Universo.

A face é o símbolo perfeito da alma e, na criatura perfeita, Ela tem a forma perfeita e inefável de toda beleza da vida e da matéria.

Por isso no centro de todas as belezas das coisas encontramos a face adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, no centro da face adorável de Jesus Cristo está o olhar dEle que é o suco e o compêndio de toda face.

Na fisionomia do Santo Sudário encontramos a síntese de toda a vida dEle.

Ele não é como nós. Ele é divinamente elevado e na fisionomia dEle há todas as expressões.

No Santo Sudário a vida dEle está representada de um modo magnífico.

Nele a gente vê o verdadeiro holocausto que foi tão, tão alto que tornou necessária a ressurreição.

Como então representar uma expressão facial tão complexa sem ter visto a Jesus em vida ou no sepulcro enquanto era preparada sua mortalha por Nossa Senhora e pelas santas mulheres?

As rudimentares pinturas das catacumbas não indicam que os primeiros cristãos tivessem ideia da face de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou pelo menos dons artísticos capazes de exprimi-la.

Por vezes, o Bom Pastor é apresentado barbeado e os cabelos encaracolados, como era o uso dos aristocratas romanos!

Séculos depois começam a aparecer imagens que já se aproximavam da fisionomia que está no Santo Sudário.

Como isso foi feito? Pode ser a tradição, mas como é que se transmite pela tradição a figura de um rosto que ninguém pintou nem esculpiu?

A narração do Evangelho autentica o rosto, mas o Evangelho não dá os elementos para a pintura do rosto.

Mosaico bizantino na catedral Agia Sofia em Constantinopla à esquerda. Maestro da Observância, tal vez el joven Sano di Pietro (1406–1481)l à direita
Mosaico bizantino na catedral Agia Sofia em Constantinopla à esquerda.
Mestro da Observância, tal vez o jovem Sano di Pietro (1406–1481)l à direita
À medida em que os séculos foram passando, as imagens de Nosso Senhor foram ficando mais parecidas com a do Santo Sudário que, entretanto, era pouco conhecido.

Isso é inconcebível pelo processo histórico natural, porque quanto mais os séculos se afastam do personagem, tanto mais é difícil conceber como ele foi e mais difícil é representa-lo.

O imaginário ainda que elaborado por grandes artistas se afasta cada vez mais da objetividade histórica.

Com Nosso Senhor Jesus Cristo aconteceu o contrário. Quanto mais os tempos foram andando, mais as imagens foram se aproximando do verdadeiro rosto divino.

Quando algum artista conseguia pintar melhor a Nosso Senhor, havia uma aclamação dos fiéis que reconheciam o rosto de Cristo na sua obra e desenvolviam uma piedade especial por Ele.

Mas esses fiéis e artistas não viram nem conheceram o Redentor! Como se explica?

Por exemplo, todo o mundo reconhece que Jesus Cristo é verdadeiramente do jeito do Beau Dieu d'Amiens.

Também certas pinturas de Fra Angélico têm uma semelhança toda especial com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Até que Esse se fez conhecer quando foi fotografado o Santo Sudário de Turim no século XIX.

No Santo Sudário há mais do que na muito bela imagem do Beau Dieu de Amiens porque Ele brilha pelo senso da própria sacralidade no meio daqueles sinais ensanguentados de crueldades sem conta.

Ele vela de olhos fechados perante os outros para que sua sacralidade seja reconhecida.

Ele é o apóstolo vivo de sua própria sacralidade. Isso faz do Santo Sudário uma verdadeira beleza.

Até naquela repulsa dEle em relação ao crime infinito que foi cometido contra Sua divina sacralidade.

No Santo Sudário nós ficamos diante da fisionomia de Nosso Senhor comprovada por uma presença que derrota todas as ciências e tecnologias.

Através de séculos e séculos, a força do amor nas almas transmitiu por sucessão oral a intuição de como era Ele até que no século XIX apareceu Sua fotografia.

Então, a Cristandade inteira exclamou: “É Ele”!

Beau Dieu na catedral de Amiens e o Santo Sudário
Beau Dieu na catedral de Amiens e o Santo Sudário
O problema psicológico é que quem tem uma participação no espírito dEle percebe que ali está a divina fisionomia moral.

Mas quem vê o rosto com os olhos da carne sem participação no espírito de Cristo, não percebe a fisionomia divina.

Isto se dá – christianus alter Christus – com incontáveis católicos a respeito de incontáveis situações.

Deu-se também com o povo judeu de um modo misterioso. Porque uma boa parte dos judeus em certos momentos “via” a Ele e depois, em certos outros momentos, não O “via”.

Daí aquela mixórdia de ora quererem recebê-lo em Jerusalém, triunfante, e ora preferirem libertar Barrabás e pedir que Nosso Senhor morresse.

Como se explica isso?

É que eles tinham estados de espírito mutantes, ora melhores, ora piores, dentro de um fundo de alma muito ruim.

Mas, tocados por graças muito grandes, em certos momentos eles viam.

E depois, em outros momentos, aquilo se apagava. Por culpa deles! Eles eram culpados: eles não resistiam à aridez.

Quando eu vi o Santo Sudário eu pensei o seguinte: “Eu nunca pensei que Sua seriedade pudesse chegar a esse ponto!”.

O Sacro Volto está em estado de reprovação, de quem contempla o abismo de sua própria dor, o tamanho do crime cometido, sofre por esse crime e não apenas por sua dor física.

Ele fez isso para nós compreendermos o que é a necessidade de um traço de seriedade presidindo a todos os ambientes, a todas as coisas, a todos os lugares, para ter uma civilização verdadeiramente católica.

Mistérios da Providência Divina diante dos quais os homens com todas as nossas aparelhagens, metodologias, máquinas, bibliotecas, etc., ficamos pequenos.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Civilizações perdidas na floresta amazónica
desmentem mitos 'verdes'

Antigo assentamento amazônico de Kuhikugu
Antigo assentamento amazônico de Kuhikugu
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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E se tivesse havido civilizações surpreendentes na Amazônia misteriosamente desaparecidas e que se quer silenciar, deturpando nosso passado e, em consequência, nosso futuro?

A teologia da libertação e o estruturalismo tribalista martelam uma visualização deprimente de nosso continente.

Espalham obsessivamente o mito de que os índios amazônicos levariam uma vida ideal na natureza afundados num primitivismo extremo, sem “intoxicações” culturais do Evangelho, da propriedade privada, da organização racional da vida, do agronegócio, etc.

Esse mito repousa numa conversa excogitada por teólogos e utopistas ultracomunistas na Europa para induzir a tóxica utopia em que visam afundar a humanidade.

Aliás, é o mito condensado na utópica caverna com que Marx sonhou e para onde queria levar a humanidade.

Confira: Karl Marx: o profeta anticristão da vida tribal, e o Sínodo Pan-amazônico

Da caverna de Marx à taba ecolo-missionária

O prof. Martti Pärssinen (upper left) dirige arqueólogos finlandeses que desenterraram cerâmicas amazônicas de formas inteiramente novas
O prof. Martti Pärssinen dirige arqueólogos finlandeses
que desenterraram cerâmicas amazônicas de formas inteiramente novas
O blefe histórico foi mais uma vez desvendado recentemente. Uma equipe de cientistas descobriu o desenho de aldeias e cidades construídas entre 1300 e 1700 d.C. no estado do Acre, na Amazônia brasileira, muito próximas da fronteira com o Peru e a Bolívia, segundo reportagem de “La Nación”.

E isso sem contato com os criticados “brancos”, aliás beneméritos missionários e civilizadores

Já tivemos ocasião, mais de uma vez, de falar destas civilizações desaparecidas na Amazônia e da virtual perseguição oficial dos investigadores que há décadas vem sendo obstaculizados em seus trabalhos de descoberta.

Confira: Amazônia, lar de uma grande civilização perdida

Arqueólogos e linguistas revelam civilização urbana no Alto Xingu, Amazônia

O jornal portenho sublinha que o extraordinário dos fundamentos das cidades agora descobertas é que os edifícios nativos estavam dispostos em forma de círculo e ligados uns aos outros por caminhos que apontavam para os pontos cardeais, como relógios.


Vídeo: Os geoglifos do Acre
clique na foto para ver



O furor comuno-tribalista contra o desmatamento em parte visa impedir que esses fundamentos fiquem visíveis à luz do dia.

Tecnologias que descobrem a verdade


Mas a tecnologia progredindo, a obstaculização comuno-ambientalista acabou driblada.

A descoberta foi feita por meio de um sistema de sensoriamento remoto montado em um helicóptero, segundo levantamento da Universidade de Exeter (Reino Unido).

Além disso, a descoberta foi possível graças à tecnologia de escaneamento LiDAR, a mesma que usam alguns carros autônomos e os novos modelos de iPhone da Apple apresentam para escanear o ambiente e calcular distâncias.

Usando o sensor RIEGL VUX-1 UAV instalado em um helicóptero Bell, os cientistas documentaram uma paisagem muito mais complexa da que pode ser vista a olho nu.

Geoglifos na Amazônia
Geoglifos (grandes figuras feitas no chão) na Amazônia
Ficou assim revelada a silhueta de várias cidadelas escondidas sob a vegetação

Mais de 35 aldeias e dezenas de trilhas antigas foram classificadas. No entanto, os pesquisadores acham que há muito mais a descobrir nesta selva inexplorada.

Cada cidade consistia em 3 a 32 grupos de casas dispostas em círculo. O diâmetro de cada círculo variou entre 40 e 153 metros com um retângulo no meio.

Segundo a pesquisa, publicada no Journal of Computer Applications in Archaeology, as aldeias estavam interligadas por estradas de orientação cardeal, ou seja, as trilhas apontavam para norte e sul.

As estradas retas conectavam uma cidade a outra, criando uma rede de comunidades ao longo de muitos quilômetros.

A disposição das aldeias sugere que os antigos acreanos tinham modelos sociais muito específicos para estabelecerem suas comunidades.

E embora já tivesse sido documentada a presença de aldeias circulares naquela região brasileira, até agora se desconhecia sua extensão, bem como seu vínculo essencial com outros povos.

“O LiDAR permitiu-nos detectar estas cidades e as suas características como estradas, o que antes não era possível porque a maioria não é visível com os melhores dados de satélite disponíveis”, disse José Iriarte, explorador da National Geographic Society e principal responsável do relatório final agora publicado. Cfr. também “Lidar magazine”, 04.01.2019;

Cerâmicas recuperadas na bacia do Tapajós, Santarém, Pará
Cerâmicas recuperadas na bacia do Tapajós, Santarém, Pará
Essas culturas surgiram, sucumbiram, se transformaram e ressurgiram muito antes de os europeus chegarem ao continente americano.

As provas arqueológicas identificadas como as da Caverna da Pedra Pintada demonstram que uma civilização estava instalada na Amazônia há estimados 11.200 anos.

Depois ainda apareceriam cidades densamente povoadas, afastando a ideia de que a floresta tropical amazônica é uma selva intocada.

Pelo contrário, foi desmatada em boa medida e intensamente trabalhada por uma florescente civilização que se pode estimar em milhões de habitantes, ou tal vez mais, segundo recolheu o site “Quora”, se fazendo eco de numerosas publicações científicas.

Na bacia amazônica poderia haver 1300 vestígios de cidades grandes e pequena
Na bacia amazônica poderia haver 1300 vestígios de cidades grandes e pequena
Uma das razões dos arqueólogos, e não das menores, é a identificação insofismável de terra preta, terra que adubada por agricultores inteligentes ficou extraordinariamente fértil, numa região como a floresta tropical onde o solo é habitualmente pobre.

Ainda faltam dados para se definir a exata identidade dessas civilizações e toda sua história, mas sem dúvida foram as mais antigas civilizações da floresta úmida amazônica.

National Geographic: abandonar velhos mitos


O site da reputada National Geographic Society aborda incisivamente a questão de fundo: é preciso abandonar a ideia da Amazônia povoada por pequenas tribos nômades vagueando numa selva virgem.

Porque antes da chegada de descobridores, colonizadores e evangelizadores em volta do Rio Amazonas floresciam civilizações com grandes cidades e centros cerimoniais. Quer dizer bem antes de Cristóvão Colombo avistar as primeiras praias da América Central.

Milhões de pessoas integravam este imenso conjunto que explorava a agricultura e piscicultura, desmatava, adubava modificando a terra, construindo cidades, fortalezas, estradas e canais de uma perfeição que espanta.

Vídeo: Geoglifos e sambaquis
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As mais recentes pesquisas arqueológicas com tecnologia de avançada encontraram que a história da floresta tropical amazônica é bem mais diferente do que se contava até hoje, acrescenta a National Geographic.

Essa publicou no jornal científico Nature Communications, parte dos resultados que desafiam a esclerosada percepção comum sobre a floresta úmida da Amazônia como sendo escassamente povoada.

Essa narrativa menosprezava que já no século XVI europeus fizeram ricos relatos da existência de grandes cidades interconectadas por uma rede de estradas.

Como o satélite 've' vestigios arqueológicos através da vegetação. Na foto cidade perdida na América Central
Como o satélite 'vê' vestígios arqueológicos através da vegetação.
No gráfico: cidade perdida na América Central
“Muita gente ainda acredita que esse foi um paraíso intocado”, explicou Jonas Gregório de Souza, arqueólogo da Universidade de Exeter, Grã-Bretanha, engajado nos trabalhos.

Como a maioria da região ainda não foi explorada e está coberta por uma densa floresta, até agora ficou inacessível aos arqueólogos.

Agora com o recurso de imagens de satélite puderam ser fotografados antigos geoglifos —grandes figuras feitas no chão, em morros ou regiões planas — em partes inexploradas do Mato Grosso.

Com os dados dos satélites, expedições de cientistas foram direto aos locais e encontraram grandes extensões de terra que foram trabalhadas por hábeis agricultores em pelo menos 24 pontos que visitaram.

Num deles encontraram cerâmicas e carvão de uma cidade do ano 1410 a.C.

Com os achados puderam prospectar onde houve outros sítios de cidades semelhantes e criaram um modelo computacional que permite reconhecer pelas elevações feitas pelo homem muitos outros aldeiamentos ou cidades escondidas ao olho humano.

Eles estimam que existam por volta de 1.300 geoglifos reveladores da existência outrora de cidades numa área de quase 400.000 quilômetros quadrados, na maioria no Acre e países vizinhos, dois terços dos quais ainda não foram visitados.

Terra Preta evidencia trabalhos intensivos de adubação
Terra Preta evidencia trabalhos intensivos de adubação
Os computadores também estimam uma densidade populacional muito maior da imaginada. A equipe pensa em algo entre 500.000 e 1 milhão de pessoas em apenas 7% da bacia amazônica desafiando todas as estimativas anteriores.

Esses sítios interconectados sugerem uma série de cidades fortificadas que floresceram numa extensão de mais de 1770 quilômetros entre os anos 1.200 e 1500 a.C.

Com esses dados “nós precisamos reescrever a história da Amazônia”, disse o professor da Universidade de Exeter José Iriarte, co-autor do trabalho.

The Wall Street Journal: ambientalistas mudam de ideia


Zoolito amazônico, procedência indeterminada, na Univ.Federal do Pará
Zoolito amazônico, procedência indeterminada,
na Univ.Federal do Pará
Para o “The Wall Street Journal” o volume de provas recolhidas pelos arqueólogos com imagens de satélites, radares levados em aviões e câmeras em drones estão fazendo que ecologistas e ambientalistas abandonem suas velhas crenças numa Amazônia jamais tocada pela civilização.

O antropólogo Michael Heckenberger da Universidade da Florida em Gainesville, definiu: “Estamos diante de uma floresta influenciada pelo homem como não conhecíamos”.

Os achados incluem 81 instalações anteriores à data da chegada de Colombo a América, na bacia do Tapajós em Mato Grosso, que remontam aos anos 1250‒1500 a.C.

Algumas são pequenas e outras grandes e têm múltiplos montículos provavelmente devotados a cerimônias (com vagas semelhanças com pirâmides), praças e calçadas, disseram os arqueólogos.

Mas, então o que aconteceu com essa imensa povoação? 

De Souza enuncia diversas hipóteses, mas reconhece que ainda há muita coisa a se investigar sobre o destino dessas civilizações que numa hora desconhecida se desvaneceram.


Vídeo: A pedra do Ingá, Paraíba
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Incógnitas na liquefação do sangue de San Gennaro ( São Januário)

O sangue de São Januário liquefeito
O sangue de São Januário liquefeito
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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O milagre da liquefação do sangue do mártir São Januário (ou San Gennaro em italiano) acontece quase todo ano em duas datas principais.

A primeira data da liquefação anual é o sábado que precede o primeiro domingo de maio, festa da translação das relíquias do santo a Nápoles.

A segunda é o dia 19 setembro, festa litúrgica do aniversário do martírio do bispo São Januário. Nas duas datas o sangue se dissolve também nos sete dias sucessivos, segundo relatou “Il Fatto Quotidiano”.

A relação com eventos nefastos é feita pelos fiéis quando não há liquefação do sangue em alguma dessas duas datas. A Igreja não adota nenhuma interpretação, mas deixa correr as suposições piedosas, e até agora não declarou o prodígio como "milagre".

Porém, para pasmo de todos, a liquefação acontece também em datas aleatórias, como 16 dezembro, dia em que no ano 1631 impetuosas torrentes de lava do Vesúvio desciam rumo à cidade de Nápoles, com força para destruí-la como outrora Pompeia e Herculanum.

Os napolitanos confiaram sua vida e sua cidade a São Januário e levaram o artístico busto que contém o crânio e relíquias do santo em procissão pelas ruas. A lava então parou inexplicavelmente na orla da cidade que foi salva.

A média é de 17 liquefações por ano e desde 1389 até hoje foram registradas cerca de 10 mil, sendo verossímil que houve muitas outras não anotadas, explicou um cientista convocado a estudar o caso.

O sangue de São Januário não-liquefeito, sólido
O sangue de San Gennaro não-liquefeito, sólido
O fenômeno da liquefação se repete há séculos, porém o primeiro documento escrito remonta ao 17 de agosto de 1389.

Nele está escrito: “foi feita uma solene procissão em que por milagre, Jesus Cristo Senhor Nosso mostrou seu poder no sangue do beato Januário, que estava numa ampola e se liquefez, como se tivesse saído nesse dia do próprio corpo do Beato”.

O santo foi bispo de Benevento e o imperador Diocleciano mandou decapitá-lo, crime acontecido no dia 19 setembro do ano 305. Durante a execução, uma mulher nobre de nome Eusébia recolheu em duas ampolas o sangue do mártir que ocultou dos carrascos.

Em 1988 o Cardeal Michele Giordano, arcebispo de Nápoles, pediu ao cientista Pierluigi Baima Bollone, professor de Medicina Legal na Universidade de Turim, que tinha uma longa experiência estudando o Santo Sudário, que examinasse com o mesmo rigor científico o sangue de San Gennaro, continua “Il Fatto Quotidiano”.


O cientista realizou uma espectroscopia – técnica que emprega a radiação a fim obter dados da estrutura e das propriedades da matéria – aplicando a câmera sobre a ampola com o sangue do padroeiro napolitano, quando estava em estado fluido.

O resultado fez emergir a presença da hemoglobina – proteína presente nos glóbulos vermelhos que é a responsável pela coloração vermelha do sangue – e os subprodutos de sua degradação.

“Este resultado – afirmou Baima Bollone – não prova com certeza absoluta a presença de sangue, mas leva razoavelmente a excluir que se trate de uma matéria de outra natureza.

“Todas essas constatações convergem para a conclusão de que o evento de San Januário acontece sobre matéria certamente humana”.

Não é bem difundido, mas a liquefação de sangue de mártires católicos é mais frequente do que se conhece comumente.

Há o caso do sangue de São Pantaleão (fim do século III), conservado por séculos na Itália e que se torna líquido anualmente a 27 de julho.

Também uma parte desse sangue que outrora foi levado ao Real Mosteiro da Encarnação de Madri, Espanha, se liquefaz no mesmo dia 27 de julho

Pierluigi Baima Bollone, professor de Medicina Legal na Universidade de Turim
Pierluigi Baima Bollone, professor de Medicina Legal
na Universidade de Turim
O Prof. Baima Bollone sublinhou ainda a pasmosa estatística da “média de 17 liquefações por ano, desde 1389 até hoje ocorreram cerca de 10 mil”, e que elas aconteceram “em locais, em condições ambientais e em climas culturais, até muito diferentes”.

O prof. Baima Bollone também especificou que não parece haver um fator natural constante como a temperatura ambiente ou o horário ou algum ponto de fluidificação definido no conteúdo da ampola.

O derretimento pode acontecer em um ambiente no qual a temperatura varia de 30 graus nos meses quentes a 5-6 graus nos dias frios.

Não há nem mesmo uma relação entre a temperatura e a velocidade da mudança de estado, que é muito diferente de uma liquefação para outra.

O grau de fluidificação se manifesta sem regras. De fato, em alguns casos, o líquido derretido flui como água, enquanto em outros é pastoso, viscoso e quase borrachento.

Às vezes, contém o chamado “globo”, uma porção de substância que não é completamente liquefeita.

A cor também varia, passando de preto a vermelho-escuro, ora vermelho-vivo ora vermelho-amarelado.

O volume também muda e parece dobrar, e muitas vezes forma espuma.

Finalmente, o peso muda com uma oscilação de até trinta gramas, em alguns casos até em relação inversa às variações de volume: aumenta esse e diminuiu o peso, e vice-versa.

“Tudo isso – explicou Baima Bollone – escapa a qualquer explicação científica possível”.

Mais cientistas confessam incapacidade da ciência diante do prodígio

A análise espectroscópica do Prof. Baime Bollone em 1989 concordou com a primeira análise similar de 25 de setembro de 1902 feita pelos professores Sperindeo e Januario (Ferdinando Grassi, I Pastori della Cattedra Beneventana, Auxiliatrix 1969, pag. 13, apud UCCR)

Em fevereiro de 2010, o Departamento de Biologia Molecular da Universidade Federico II de Nápoles, guiado pelo professor Giuseppe Geraci, demonstrou definitivamente a presença de sangue humano dentro da ampola San Gennaro.

Após quatro anos de intensas pesquisas, o biólogo afirmou: “apliquei o máximo rigor científico a um acontecimento considerado absolutamente metafísico, inexplicável”.

E após centenas de observações e levantamentos, chegou a uma confirmação substancial da posição do professor Baima Bollone e sua análise espectroscópica.

O Cardeal Sepe exibe o sangue de San Januário liquefeito
O Cardeal Sepe exibe o sangue de San Januário liquefeito
O professor Geraci teve a disposição uma ampola semelhante à de San Gennaro, proveniente do Eremo dei Camaldoli do século XVII e que submeteu a vários testes.

Geraci concluiu que “quanto a San Januário, não há dados científicos unívocos que expliquem por que essas mudanças ocorrem.

“Não basta atribuir ao movimento a capacidade de dissolver o sangue, o líquido muda de estado por motivos ainda a serem identificados” (Il Mattino di Napoli, 5/2/10, apud UCCR)

O prof. Geraci apresentou suas conclusões à Academia Nacional de Ciências física e matemática presidida em Nápoles pelo reitor Guido Trombetti e um congresso de altos cientistas.

Nela, o biólogo Geraci voltou a reconhecer a incapacidade da ciência para desvendar o evento: “não sabemos em que circunstâncias o sangue da ampola de San Januário passa de sólido para líquido e vice-versa” (Il Levante, 9/5/10, apud UCCR).

E voltou a sublinhar “na liquefação do sangue de San Gennaro permanece o mistério de que em alguns casos o sangue permanece sólido e em outros se dissolve sem intervenção externa”.

A posição do biólogo Gerasi foi reforçada pelo matemático Guido Trombetti, Presidente da Academia de Ciências Matemáticas e Físicas, e ex-Presidente da Conferência de Reitores das Universidades Italianas.

Ele disse: “no caso guardado na catedral certamente há sangue humano... devemos parar com a alegada superioridade intelectual da posição dos não crentes sobre a dos crentes” (Il Messaggero, 7/2/10, apud UCCR)

Por muito tempo aqueles, mesmo entre os cientistas, que alegaram a falsidade do milagre de San Gennaro, tentaram explicar o prodígio pelas repetidas oscilações da caixa contendo o sangue feito pelos eclesiásticos responsáveis. Essa suposição ficou afastada nos testes.

Por vezes esses movem a ampola com o sangue para evidenciar ante os fiéis se se deu a liquefação ou se se mantém sólido.

Busto de San Gennaro, catedral de Nápoles conserva o cránio e ossos do mártir
Busto de San Gennaro, catedral de Nápoles
conserva o crânio e ossos do mártir
A não dissolução que houve neste último caso como em anos anteriores em dezembro 2020 malgrado a movimentação, mostra que essa suposição é absolutamente falsa.

Na verdade, a oscilação do relicário não desencadeia a liquefação do sangue.

Nos últimos anos quando foi aberto o cofre que continha o relicário com a relíquia, nas duas datas principais, em maio e em setembro, o sangue já estava completamente dissolvido, sem ter sido sujeito a qualquer movimentação.

A última não-liquefação de 16 dezembro se caracterizou, como sempre, com uma expectativa popular bem menor e a ausência habitual dos altos eclesiásticos da arquidiocese.

Entrementes, aquilo que “Il Mattino”, o principal jornal de Nápoles e maior do sul da Itália, qualificou de “terrível 2020” suscitou temores alimentados pelo espetáculo deplorável da pandemia universal.

“Se há alguma coisa que deve se derreter, é o coração do homem” disse o pároco de Santa Maria Assunta na catedral de Nápoles, Mons. Vincenzo Papa, em referência a uma necessidade de profunda conversão.

Aliás, é o que Nossa Senhora vem pedindo em Fátima e La Salette há mais de um século.

Infelizmente vem encontrando os ouvidos endurecidos à graça diante da perspectiva de tremendos castigos de que a atual pandemia parece ser um início.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Quem foram os Reis Magos?

'A viagem dos Magos' (1894), James Jacques-Joseph Tissot (1836-1902). Brooklyn Museum, New York City.
'A viagem dos Magos' (1894), James Jacques-Joseph Tissot (1836-1902).
Brooklyn Museum, New York City.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Um antigo documento conservado nos Arquivos Vaticanos lança uma certa luz, embora indireta e sujeita a caução, sobre a pessoa dos Reis Magos que foram adorar o Menino Jesus na Gruta de Belém. A informação foi veiculada por muitos órgãos de imprensa e páginas da Internet.

O documento é conhecido como “A Revelação dos Magos”. 

Provavelmente seja algum “apócrifo”, nome dado aos livros não incluídos pela Igreja Católica na Bíblia. Portanto, não são “canônicos”, apesar de poderem ser de algum autor sagrado.

“Canônico” deriva de “Cânon”, que é o catálogo de Livros Sagrados admitidos pela Igreja Católica e que constituem a Bíblia. Este catálogo está definitivamente encerrado e não sofrerá mais modificação.

Há uma série de argumentos profundos que justificam esta sábia decisão da Igreja.

Entretanto, uma extrema ponderação em apurar a verdade faz com que a Igreja não recuse em bloco esses “apócrifos” e reconheça que pode haver neles elementos históricos ou outros que ajudem à Fé.

Por isso mesmo, o Vaticano conserva a maior coleção mundial desses “apócrifos”, e os põe à disposição dos críticos de todas as religiões que queiram estudá-los.

A Igreja não tem medo de que possa sair qualquer coisa que desdoure a integridade e a santidade da Bíblia. Antes bem, deseja ardentemente encontrar qualquer dado que possa ajudar a melhor compreendê-la.

O apócrifo “A Revelação dos Magos” aparenta ser um relato de primeira mão da viagem dos Reis do Oriente para homenagear o Filho de Deus.

Reis Magos, Nicolás de Verdun (1130 – 1205).
Urna dos Reis Magos na catedral de Colônia

Só recentemente foi traduzido do siríaco antigo. O mérito é do Dr. Brent Landau, professor de Estudos Religiosos da Universidade de Oklahoma, EUA, que dedicou dois anos para decifrar o frágil manuscrito.

Trata-se de uma cópia feita no século VIII a partir de algum original perdido que, por sua vez, fora transcrito meio milênio antes.

Portanto, a fonte original desse apócrifo dos Reis Magos remonta a menos de um século depois do Evangelho de São Mateus.

O documento levanta questões em extremo interessantes: 

Quem foram ao certo, os Reis Magos? 

Foram três? 

Quais eram seus nomes? 

De onde vieram? 

Por quê?

Vejamos primeiro o que nos diz a única fonte digna de fé religiosa, o Evangelho de São Mateus:

“1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.
“2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.
“3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.
“4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.
“5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:
“6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).
“7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.
“8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.
“9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.
“10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.
“11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
“12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.” (São Mateus, cap. 2, 1ss)

Três Reis Magos, mosaico em San Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália.
No muro da igreja, concluida em 569, lê-se os nomes dos três.
Apresentados com gorros frígios (chapéu originário da Ásia Menor.
No Irã era atributo do deus Mitra).
A narração de São Mateus contém tudo o que é necessário para a Fé. Mas com o beneplácito e a aprovação da Igreja a piedade popular acrescentou muitos outros pormenores, que foram transmitidos por tradição oral e que são aceitos sem contestação.


O que diz a Tradição sobre seu número, condição, proveniência e destino?

É aqui que entra o papel do grande São Beda, o Venerável (673-735), Doutor da Igreja e monge beneditino nas abadias de São Pedro e São Paulo em Wearmouth, e na de Jarrow, na Nortumbria, Inglaterra.

São Beda é uma das máximas autoridades dos primeiros tempos da Idade Média pelo fato de ter recolhido relatos transmitidos oralmente pelos Apóstolos aos seus sucessores, e destes aos seguintes.

São Beda é também considerado como fonte de primeira mão da história inglesa, sendo muito respeitado como historiador. Sua História Eclesiástica do Povo Inglês (Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum) lhe rendeu o título de Pai da História Inglesa.

No tratado “Excerpta et Colletanea”, o Doutor da Igreja assim recolhe as tradições que chegaram até ele:
“Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.
Três Magos adoram o Menino Jesus.
Sarcófago romano dos primeiros tempos do cristianismo, Museu Vaticano.
É, pois, São Beda quem por primeira vez escreveu o nome dos três. Nomes com significados precisos que nos ajudam a compreender suas personalidades.

Melquior quer dizer: “Meu Rei é Luz”, Gaspar significa “aquele que vai inspecionar” e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.

Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes.

Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo.

Também seus presentes têm um significado simbólico. Melquior deu ao Menino Jesus ouro, o que na Antiguidade queria dizer reconhecimento da realeza, pois era presente reservado aos reis.

Gaspar ofereceu-Lhe incenso (ou olíbano), em reconhecimento da divindade. Este presente era reservado aos sacerdotes.

Por fim, Baltasar fez um tributo de mirra, em reconhecimento da humanidade. Mas como a mirra é símbolo de sofrimento, veem-se nela preanunciadas as dores da Paixão redentora. A mirra era presente para um profeta. Era usada para embalsamar corpos e representava simbolicamente a imortalidade.

Desta maneira, temos o Menino Jesus reconhecido como Rei, Deus e Profeta pelas figuras que encarnavam toda a humanidade.

Em coerência com essa visão, a exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de Davi:

“Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. 11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”. (Sl. 71, 10-11) (P.S.: na numeração das traduções direto do hebraico, é o Sl. 72, 10-11).

Alguns especularam que talvez pelo menos um deles veio da terra de Shir (não identificada nos mapas modernos), na antiga China.

Em livro – escrito a título pessoal, portanto não sendo documento do magistério eclesiástico – Joseph Ratzinger (S.S.Bento XVI) comenta que “a promessa contida nestes textos [N.R.: Salmo 72,10] estende a proveniência destes homens até ao extremo Ocidente (Tarsis, Tartessos em Espanha), mas a tradição desenvolveu posteriormente este anúncio da universalidade aos reinos de que eram soberanos, como reis dos três continentes então conhecidos: África, Ásia e Europa”, segundo informou “Religión Digital” de Espanha.


A amplidão do leque de possibilidades geográficas fica patente neste comentário.

Tarsis ou Tartessos ficaria na Andaluzia, Espanha, especificamente em “algum lugar compreendido entre Cádiz, Huelva e Sevilha”. 

Segundo o “ABC” de Madri, os sevilhanos acham que se Melquior, Gaspar e Baltasar fossem andaluzes teriam se manifestado mais alegremente, teriam cantado “sevilhanas” e levado pandeiros. A reação popular suscita um amável sorriso.

O que foi depois dos Reis Magos?

Reis Magos. Representam todas as raças. Andrea Mantegna (1431-1506). J. Paul Getty Museum, Los Angeles.
Reis Magos. Representam todas as raças.
Andrea Mantegna (1431-1506). J. Paul Getty Museum, Los Angeles.
De acordo com uma tradição acolhida por São João Crisóstomo, Padre da Igreja, os três Reis Magos foram posteriormente batizados pelo Apóstolo São Tomé e trabalharam muito pela expansão da Fé (Patrologia Grega, LVI, 644).

A fama de santidade dos Reis Magos chega até os nossos dias.

Seus restos são venerados na nave central da Catedral de Colônia, Alemanha, em magnífica urna de ouro e de pedras preciosas que extasia os visitantes.

As relíquias deles foram descobertas na Pérsia pela imperatriz Santa Helena e levadas a Constantinopla, capital do Império Romano de Oriente.

Depois foram transferidas a outra capital imperial no Ocidente – Milão –, até que foram guardadas definitivamente na Catedral de Colônia em 1163 (Acta SS., I, 323).


Por que eram "Magos"?

O nome “mago” era sinônimo de “sábio”. O tratamento dado a eles como grandes eruditos, prudentes e judiciosos, provinha do fato de os sacerdotes da Caldeia serem muito voltados para a consideração dos astros com uma sabedoria que surpreende até hoje.

A eles devemos o início da ciência astronômica.

Sem dúvida, seu caráter de “magos”, reconhecido pelo Evangelho de São Mateus, aponta para a área da civilização caldeia (cujo epicentro foi no atual Iraque, mas incluiu diversos países vizinhos, entre eles o Irã).

Com a decadência moral, os “magos” caldeus viraram uma espécie de bruxos, divulgadores de toda espécie de superstições.

Os Três Reis Magos teriam sido os últimos sacerdotes honrados daquele mundo pagão que aspiravam sinceramente conhecer o Salvador.

Relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia.
Neste caso, foram exemplos arquetípicos do pagão de boa-fé que deseja conhecer a verdadeira religião, e que assim que a encontra adere a ela sem demoras nem restrições.

Foram "Reis"?

Discute-se também em que sentido podem ser chamados de “Reis”, pois não se lhes conhece a procedência e menos ainda a localização do reino.

Porém, na Antiguidade, os patriarcas, ou chefes de grandes clãs, ou grupos étnico-culturais, governavam com poderes próprios de um rei, sem terem esse título ou equivalente. E seu reinado se concentrava sobre sua hoste, por vezes nômade.

São João Damasceno não recusava que eles fossem descendentes de Set, terceiro filho de Adão.

E este pormenor nos leva de volta ao “apócrifo” do Vaticano.

A estrela que os guiou

O referido manuscrito estava na Biblioteca Vaticana havia pelo menos 250 anos, mas não se sabe mais nada de sua proveniência.

Está escrito em siríaco, língua falada pelos primeiros cristãos da Síria e ainda hoje, bem como do Iraque e do Irã.

O Prof. Landau acredita que no apócrifo entra muita imaginação. Mas, há uma muito longa descrição das supostas práticas, culto e rituais dos Reis Magos.

Relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia, Alemanha.
Feitos, pois, os devidos descontos no apócrifo, lemos nele que Set, terceiro filho de Adão, transmitiu uma profecia, talvez recebida de seu pai, de que uma estrela apareceria para sinalizar o nascimento de Deus encarnado num homem.

Prêmio a uma fidelidade de séculos

Gerações de Magos teriam aguardado durante milênios até a estrela aparecer, confiantes no aviso de Set.

Mistérios da fidelidade! Milênios aguardando, gerações morrendo na esperança e transmitindo aos filhos o anúncio de um dia remoto em que o mundo receberia o Salvador!

Segundo o Prof. Landau, o apócrifo diz que a estrela no fim “transformou-se num pequeno ser luminoso de forma humana que foi Cristo, na gruta de Belém”.

A afirmação não é procedente se a interpretarmos ao pé da letra. Mas, levando em conta o estilo altamente poético do Oriente, poderíamos supor que o brilho da estrela de Belém convergiu no Menino Jesus e desapareceu.

E, de fato, depois de encontrar o Menino Deus, os Magos não mais viram a estrela.

Alertados por um anjo, voltaram por outro caminho às suas terras, como ensina o Evangelho de São Mateus, que não mais menciona a estrela no retorno.

Anúncio dos profetas e juízo de Padres e Doutores da Igreja

Adoração dos Magos, Gentile da Fabriano (1370-1427). Galleria degli Uffizi, Florença
Adoração dos Magos, Gentile da Fabriano (1370-1427). Galleria degli Uffizi, Florença
A festa da adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus recebeu o nome de Epifania do Senhor. Epifania vem do grego: πιφάνεια que significa “aparição; fenômeno miraculoso”.

A festa se comemora no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, ou 2 domingos após o Natal, dependendo do calendário litúrgico usado.

“Andaram as gentes na tua luz e os reis no esplendor do teu nascimento”, profetizou Isaías (Is 60, 3).

E São Tomás de Aquino explica: ‘Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões’.

Santo Agostinho sublinha que eles procuraram com fé mais ardente Àquele que punham de manifesto o clarão da estrela e a autoridade das profecias.

São João Crisóstomo completa dizendo: “porque buscavam um Rei celeste, embora nada descobrissem nele denotador da excelência real, contudo, satisfeitos só com o testemunho da estrela, adoraram-no”.

Veja também: Dado essencial: houve o fenômeno astronômico denominado “estrela de Belém”

Astrônomo defende com computador a existência da estrela de Belém


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Reaparece em Belém
o Anjo que aponta onde Jesus nasceu

Anjo redescoberto na basílica Natividade, Belém, olha fixo para o local onde Jesus nasceu
Anjo redescoberto na basílica Natividade, Belém,
olha fixo para o local onde Jesus nasceu
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Graças a uma equipe de restauradores italianos veio à luz precioso mosaico de um anjo que estava encoberto por pintura na Basílica da Natividade, em Belém, informou a BBC Brasil.

O feliz achado, depois da primorosa restauração, exibe em toda sua beleza um anjo que olha fixo para o local onde Jesus nasceu.

Coberta por reboco há quase mil anos, a obra encontrava-se fora do alcance do olhar humano.

A Basílica da Natividade, em Belém, precisava de uma importante restauração que envolvia a própria estrutura do milenar templo.

Contudo, um imprudente “ecumenismo” fazia depender as obras de restauro da aprovação de um conjunto de denominações cristãs.

As denominações ditas “ortodoxas” vivem apegadas a um passado mofado e amarfanhado, antipatizando-se com as restaurações.

Ademais, não têm a escola teológica nem o amor pelo passado que é sinal distintivo dos católicos. Esses possuem outra visão da tradição, da importância das obras de arte do passado e de sua contribuição para o presente e o futuro.

Malgrado os defeitos que possam ocorrer, o dinamismo católico é impulsionado por um amor sincero ao belo, à tradição, à história e de tudo o que se refere a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tudo procura o brilho que merece a única Igreja e que resplandece ao longo das vicissitudes tempestuosas dos milênios.