segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O Santo Cálice da Última Ceia

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Dados arqueológicos, testemunhos da tradição e documentos históricos nos falam do precioso cálice que Nosso Senhor, na Última Ceia.

Aquele que, na vigília da sua Paixão, tomou com suas santas e veneráveis mãos, e, dando graças, abençoou-o e deu-o aos seus discípulos dizendo: “Tomai e bebei todos vós, porque este é o cálice do meu Sangue. Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos os homens para remissão dos pecados. Faça isso em memória de mim”, instituindo a Santa Missa. (Oração Eucarística I, Cânone Romano. Cf. Mateus 26-29; Marcos 14, 22-25, Lucas 22, 1520 e I Coríntios 11, 23-25)


Onde está esse cálice? Chegou até nossos dias?

De fato, ele existe e está conservado na catedral de Valência, na Espanha.

Mas, como chegou até lá e quais provas autentificam que esse é o cálice da Última Ceia?

Como pode aquele cálice de aparência medieval ser o cálice da Última Ceia? Por que em Valência? Por que não é tão famoso quanto o Sudário de Turim ou o Manto de Treveris (ou Trier, Alemanha)?

Sua forma é perfeita, mas é estranha para os critérios modernos com seus esplêndidos detalhes de ouro, pérolas e pedras preciosas.

O peregrino ou o visitante fica logo cativado pela beleza do Santo Cálice exposto na catedral, mas isso não é suficiente para provar que seja o usado por Nosso Senhor.

Acresce que há séculos corre uma saga imaginosa – a do Santo Graal – que vem retomada em lendas, filmes, romances e literatura pseudocientífica embaralhando sua reputação de autenticidade.

Por isso é o caso de deixar de lado fantasias ou relatos novelescos, para alguns atraentes, mas despojados de veracidade, e pôr a lupa nas informações reunidas na catedral da cidade espanhola

Porque a Catedral de Valencia acumulou documentação ao longo dos séculos para responder a todas as perguntas.

Em 1952, por ocasião do XXXV Congresso Eucarístico Internacional, que se realizou em Barcelona, veio a lume o livro de Mons. Juan Angel Oñate, “El Santo Grial”, o qual, com farta bibliografia, relaciona os mais antigos documentos, que qualificam a citada relíquia como sendo aquela utilizada na primeira Missa. (Cfr. Con. Juan Angel Oñate Ojeda, “El Santo Grial”, Valência, lmprenta Nacher, 1972. Também Con. Elias Olmos Canalda, “Santo Caliz de la Cena”, Valência, Edição do Autor, 8ª. edição, 1959).

Etimologicamente a palavra Graal origina-se do hebraico Goral, espécie de pedra que designa também cálice.

O Santo Cálice, que é a relíquia propriamente dita, é, na verdade, a parte superior da foto que apresentamos. Se trata de uma taça de ágata finamente polida, mostrando faixas de cores quentes quando refrata a luz.

É uma preciosa “taça alexandrina” que os arqueólogos consideram de origem oriental e feita nos anos 100 a 50 a.C.

Esta foi a conclusão do estudo realizado pelo professor D. Antonio Beltrán e publicado em 1960 (“O Santo Cálice da Catedral de Valência”), nunca refutado, e que está na base do crescente respeito e conhecimento da santa relíquia ali venerada.

As asas e o pé de ouro finamente gravado foram acrescentados no período medieval, portanto muito mais tarde, como também as joias que adornam a base.

A base é composta por um vaso invertido em alabastro de origem medieval. As dimensões são harmônicas e, portanto, modestas: 17 cm. De altura, 9 cm de largura do copo e 14,5 x 9,7 cm. da base elíptica.

Em Veneza e outros lugares se preservam cálices semelhantes feitos com pedras semipreciosas de origem bizantina e na Espanha há exemplos dos séculos XI e XII.

Mas são vasos litúrgicos, encastoados em ouro e prata cujo interior está revestido de metal precioso.

No caso do Santo Cálice de Valência, os ourives que o compuseram decidiram não tocar na taça que esteve em contato com as divinas mãos do Redentor.

A taça ficou desprovida de decorações, com grandes alças externas para transportá-la sem tocar na preciosa e delicada peça de ágata translúcida.

Esse dado joga em favor da excepcionalidade da peça.

A tradição nos diz que esse foi o cálice que o Senhor usou na Última Ceia para a instituição da Eucaristia, e que depois foi levado a Roma por São Pedro e guardado pelos Papas sucessores.

Um deles, São Sisto II, a pedido das súplicas de seu diácono São Lorenzo, natural da Espanha, aprovou que fosse enviado à Huesca no século III para protegê-la da perseguição do imperador Valeriano.

Tendo em vista a ameaça dessas perseguições, cada vez mais violentas, segundo uma antiga tradição, Lourenço encaminhou o Santo Cálice para sua terra natal, a cidade de Huesca.

Santo Cálice de Valência em seu altar
Santo Cálice de Valência em seu altar
As palavras pronunciadas pelo celebrante pouco antes da consagração que faziam parte do rito da Missa aprovado por São Pio V diziam: “Accipiens et hunc Praeclarum Calicem in Sanctas ac venerabiles manus suas” (“Tomando este preclaro cálice em suas santas e veneráveis mãos”), deixam subentendido que o cálice usado pelo Pontífice era exatamente o mesmo que Nosso Senhor teve em suas mãos divinas.

No ano 712, diante da invasão muçulmana, os moradores de Huesca, tendo à frente o Bispo Acisclo, abandonaram sua cidade, levando consigo o Cálice Sagrado, buscando refúgio em Cueva de Yebra, região situada junto aos Pirineus.

A partir do ano 713, o Santo Cálice esteve escondido na região dos Pirineus, passando por Yebra, Siresa, Santa Maria de Sasabe (hoje São Adrío), Bailio e, finalmente, no mosteiro de San Juan de la Peña (Huesca), onde um documento do ano 1071 menciona o cálice feito de pedra preciosa.

Em 1071, a Santa Sé empenhou-se em substituir a liturgia mozárabe, que então era adotada em algumas regiões da península ibérica, misturando elementos árabes.

O Cardeal Hugo Cândido esteve no Mosteiro de San Juan de Peria, iniciando ali sua missão como Legado do Papa Alexandre II.

Para solenizar, como era devido, o significativo acontecimento, o Purpurado utilizou o venerando Cálice — que era guardado naquela casa religiosa — na Missa solene que celebrou.

A relíquia foi entregue em 1399 ao rei de Aragão, Martin el Humano, que a guardou no palácio real de La Aljafería em Zaragoza e depois, até à sua morte, no Palácio Real de Barcelona em 1410.

O Santo Cálice está mencionado no inventário de seus bens (Manuscrito 136 de Martinho, o Humano. Arquivo da Coroa de Aragão. Barcelona, onde a história do vaso sagrado é descrita)

Por volta de 1424, o segundo sucessor de Dom Martin, o rei Alfonso V, o Magnânimo, levou o relicário real a seu Palácio de Valência.

Tendo viajado a Nápoles, o Rei quis que fosse entregue com as demais relíquias reais à custodia da Catedral de Valência no ano de 1437 (Volume 3.532, fol. 36 v. Arquivo da Catedral).

Desde então foi conservada e venerada durante séculos entre as relíquias da Catedral.

No século XVIII até foi utilizada para conter as formas consagradas no “Monumento” da Quinta-feira Santa.

Durante a Guerra da Independência para se livrar da opressão napoleônica, entre 1809 e 1813, foi sendo transferido por Alicante e Ibiza até Palma de Mallorca, para fugir da rapina dos invasores revolucionários.

Em 1916 foi finalmente instalada na antiga Casa do Capítulo, consagrada como Capela do Santo Cálice.

Esta exposição pública permanente da relíquia sagrada permitiu divulgar o seu conhecimento, que era muito limitado enquanto permanecia resguardada no relicário da catedral.

21 de julho de 1936. Os sinos da histórica Catedral de Valência não repicam. Suas portas estão fechadas. Turbas de agitadores e incendiários socialistas e comunistas percorriam as ruas roubando, matando e incendiando.

Ninguém alimentava dúvidas quanto às suas intenções: o templo religioso, como aconteceu com tantos outros, seria invadido, saqueado e talvez incendiado pelos vermelhos.

Mons. Elias Canalda retirou o Cálice, e entregou-o a uma jovem. Esta, correndo o risco de ser presa e trucidada, levou-o, devidamente dissimulado, para sua residência.

A preciosa relíquia foi depositada num compartimento de guardar panelas, na cozinha da casa, local onde ficou escondida por algum tempo. E ficou escondido na cidade de Carlet para não ser atingido pelos comunistas.

Em 1943, restaurada a Capela do Santo Cálice, na Catedral de Valência, este foi exposto definitivamente à veneração pública, onde se encontra até hoje.

João XXIII concedeu a indulgência plenária em sua festa anual;

João Paulo II celebrou a Eucaristia com o Santo Cálice durante sua visita a Valência em 8 de novembro de 1982;

Bento XVI também quis celebrar com ele a Eucaristia por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias, em 8 de julho de 2006.

Um costume israelita nos dá um fato positivo importante proveniente de fonte não-católica.

Ainda hoje toda família judia preserva com carinho o “copo da bênção” para os jantares da Páscoa e do sábado.

E os Evangelhos nos transmitem que Jesus celebrou o rito pascal numa sala decente, mobiliada com divãs (Mc 14, 15), bênçãos rituais, a última das quais se tornou a primeira consagração eucarística do vinho no Sangue do Redentor.

Os Apóstolos e os primeiros cristãos puderam identificar o vaso da primeira Eucaristia e conservá-lo apesar de sua fragilidade em virtude do milenar costume judaico que vinha desde o Êxodo do Egito.

Pesquisadores recentes, como Michael Hesemann (“Die Entdeckung des Heiligen Grals. Das Ende einer Suche”, Ed. Pattloch 2003), situam a origem das lendas mitológicas do Graal na Espanha com base no Cálice de ágata de San Juan de la Peña, reforçando que os mistificadores sentiram necessidade de se referir ao Santo Cálice de Valência para dar alguma credibilidade a seus romances fingidamente históricos e, no fundo, esotéricos.

A crítica liberal e o materialismo anti-religioso não conseguiram destruir a fé pura da Igreja em Jesus Cristo, o Senhor.

Então espalham suspeitas e falsidades para ver se conseguem manchar a sublime relíquia.

O Cálice, com sua autenticidade arqueológica demonstrada e sua tradição livre de elementos deformantes, nos remete ao tempo de Jesus e nos lembra a instituição da Eucaristia.

A relíquia sagrada é transferida da sua preciosa capela, a antiga casa capitular (século XIV), para o altar-mor na celebração da Santa Missa na Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa e na festa solene da última quinta-feira do mês de outubro.

A Real Irmandade e a Irmandade do Santo Cálice, juntamente com o Conselho Metropolitano, mantêm o culto e a divulgação da devoção ao Santo Cálice que se expressa também nas procissões das paróquias e entidades religiosas e cívicas, todas as semanas, na celebração das “Quintas-feiras do Santo Cálice”.

Os objetos mais proximamente relacionados com a Redenção, como por exemplo o Santo Lenho, o Santo Sudário e o Sagrado Cálice, são testemunhos palpáveis do sofrimento que o Salvador padeceu pelos homens e do incomensurável amor que lhes votou.

Bibliografia

Beltrán, A.,
Estudio sobre el Santo Cáliz de la Catedral de Valencia,
Valencia 1969; 2ª Ed. revisada, Valencia 1984.

Bennet, Janice,
St. Laurence and the Holy Grail: The Story of the Holy Chalice of Valencia,
Denver (Colorado) 2000.

Hesemann, M.,
Die Entdeckung des Heiligen Grals.
Das Ende einer Suche, München 2003.

Mira, E.,
“El Santo Grial de Valencia”, en Macconi, M. y Montesno, M. (Ed.),
Il Santo Graal, un mito senza tempo, dal Medioevo al cinema. Atti del Convengno Internazionale di Studi su
“La reliquie tra storia e mito: il Sacro Catino di Genova e il Santo Graal, Genova 2002.

Sánchez Navarrete, M.,
El Santo Cáliz de la Cena, (Santo Grial) venerado en la Catedral de Valencia,
Valencia 1994. Contiene una completa bibliografía.

Olmos Canalda, E.,
Cómo fue salvado el Santo Cáliz de la Cena. Rutas del Santo Grial desde Jerusalén hasta Valencia.
6ª Ed. Valencia 1949.

Oñate Ojeda, J. A.,
El Santo Grial. El Santo Cáliz de la cena, venerado en la Sta. Iglesia Catedral Basílica Metropolitana de Valencia.
Su historia, su culto, sus destinos, 3ª Ed., Valencia 1990.

Sancho Andreu, J. (Ed.),
El Santo Cáliz. Historia, leyenda y culto.
Generalitat Valenciana, Valencia 2006.

Sancho Andreu, J.,
Il Santo Calice riafferma la verità dell’Eucaristia.
L’Osservatore Romano, 5 de julio de 2006.




segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Restos de sacrifícios humanos mostram "cultura indígena" antes da evangelização

Os sacerdotes da Pachamama Chimú abriam o peito das crianças vivas
Os sacerdotes da Pachamama Chimú abriam o peito das crianças vivas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Arqueólogos que cavavam em um santuário pré-hispânico na costa norte do Peru acharam os túmulos de 76 crianças sacrificadas há cerca de mil anos em rituais religiosos. Foi um achado que aterrorizou os corações mais endurecidos.

O arqueólogo Luis Flores, um dos que trabalham no denominado santuário Pampa La Cruz fez a descrição esse satânico achado para a agência France Press, que foi retomada por “La Nación”.

Nestes tempos, o comuno-missionarismo atualizado pelo Sínodo da Amazônia, que repercute até longe da Amazônia, exalta as “culturas” indígenas e difama a evangelização de portugueses e espanhóis que tirou esses pobres índios de pavorosas e inúmeras formas de inumanidade.

Mais uma prova desse erro pregado pela Teologia da Libertação e o Sínodo da Amazônia foi tirado à luz no Peru. E também, mais uma prova que nos estimula a agradecer a Nossa Senhora que abençoou a evangelização e tirou aos indígenas dos horrores em que viviam

Os restos foram descobertos entre julho e agosto de 2022 em duas pequenas esplanadas no município de Huanchaco, perto da cidade de Trujillo, 500 quilômetros ao norte de Lima.

Menina peruana cuida de uma pequena alpaca. Assim poderiam ter sido as crianças sacrificadas pela crueldade indígena
Menina peruana cuida de uma pequena alpaca.
Assim poderiam ter sido as crianças sacrificadas pela crueldade indígena
A equipe de pesquisadores, liderada pelo arqueólogo Gabriel Prieto, havia encontrado entre 2016 e 2019 os restos de outras 240 crianças sacrificadas pelo povo Chimú, que se desenvolveu entre os anos 900 e 1450.

Agora se trata de “300 crianças em Pampa La Cruz em todos esses anos de escavações” nos vestígios desse mesmo povo Chimú, destacou Flores.

A identificação dos restos mortais de crianças sacrificadas revela que foram massacradas quando tinham entre 6 e 15 anos.

Os 76 túmulos foram encontrados perto de um bairro em Huanchaco. Também havia vestígios de chamas no local.

“Ficamos surpresos que, à medida que escavamos 10 ou 20 centímetros, mais e mais restos foram saindo. Percebemos que eram crianças”, disse Flores.

Explicou que os sacerdotes “abriam o peito das crianças transversalmente para retirar o coração” em rituais aos deuses do povo Chimú.

“Os sacrifícios podem ser por falta de chuva, seca, problemas políticos ou guerras. Há várias hipóteses que estamos investigando”, comentou o arqueólogo.

Entre os restos estão os de cinco mulheres “sentadas” enterradas com as cabeças juntas, fazendo uma espécie de círculo.

“Graças a Pampa La Cruz, sabemos que os sacrifícios humanos, especialmente de crianças, eram uma parte estrutural da religião Chimú para celebrar e glorificar seu estado”, disse Prieto à agência estatal peruana Andina.

Nossa Senhora da Paz, na catedral de Trujillo, na região do sinistro achado. A evagelização trouxe uma maravilhosa mudança nas crenças religiosas
Nossa Senhora da Paz, na catedral de Trujillo, na região do sinistro achado.
A evangelização trouxe uma maravilhosa mudança nas crenças religiosas
“O sacrifício naquele lugar foi feito para consagrar e abrir os campos de cultivo que os Chimús possibilitaram naquela época”, acrescentou o diretor do Programa Arqueológico de Huanchaco.

Além de arqueólogos peruanos, estudantes e acadêmicos das universidades da Flórida e Tulane (Louisiana) nos EUA participaram dessas escavações.

Os trabalhos de escavação terminaram serão retomados em 2023, disse Flores, e nessa ocasião o número de restos humanos cruelmente sacrificados pode aumentar.

Pampa La Cruz fica a dois quilômetros do sítio arqueológico de Huanchaquito, onde em abril de 2018 foram encontrados os restos mortais de 140 crianças e 200 lhamas oferecidos em rituais.

A revista National Geographic destacou que testes de radiocarbono em cordas e tecidos datam os restos encontrados entre os anos de 1400 e 1450, cerca de um século antes da chegada do conquistador espanhol Francisco Pizarro ao Peru (1532).

A civilização Chimú se espalhou ao longo da costa peruana até o atual Equador e o local fica perto da costa e cerca de 300 metros acima do nível do mar.

Essa descoberta levou a uma revisão das teorias sobre as oferendas humanas nos rituais pré-hispânicos.

Por volta do ano de 1475 essa monstruosa “cultura” desapareceu quando foi conquistada pelo império inca, cuja capital era Cusco (no sudeste do Peru).

Francisco Pizarro foi o herói que abriu o passo à evangelização. Estatua ecuestre emm Trujillo, Espanha
Francisco Pizarro foi o herói que abriu o passo à evangelização.
Estátua equestre em Trujillo, Espanha
Por sua vez, o paganismo do império inca foi subjugado pelo conquistador Francisco Pizarro (1478 – 1541), missionários e um punhado de soldados espanhóis, apoiados por indígenas de outras tribos espantadas com o satanismo dos incas, algumas décadas depois.

Em consequência da gesta de Pizarro, aconteceram massivos batismos e conversões, os costumes se suavizaram, a vida foi valorizada.

E o Peru é hoje um dos países mais católicos de América Latina, com inúmeros santuários e imagens milagrosas, além de catedrais e igrejas que deslumbram pela sua beleza e sacralidade, intensamente frequentadas pelos indígenas que ainda existem dotados de um charme especial.

Os teólogos da libertação, comuno-progressistas e ativistas do Sínodo da Amazônia, deblateram contra a glorificação pública de Francisco Pizarro, aliás enterrado na catedral de Lima, e heroicos companheiros.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O que diz a ciência sobre a Torre de Babel?
Existiu? Por que ruiu? Sobrou algo? Onde?

Torre de Babel, representação artística
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O episódio da Torre de Babel e dispersão da humanidade é um dos assuntos mais presentes na memória dos povos.

Prefigurou também momentos caóticos que se repetiriam em muitos lugares em épocas históricas posteriores, inclusive nos dias de hoje. Além de ser uma imagem da imensa confusão que vai prevalecer no fim do mundo.

Entretanto, sabe-se pouco sobre essa torre.

Como era ela: retangular, circular, elíptica? Quanto media de altura? Foi uma mera torre ou um templo?

Onde ficava? Existem ainda vestígios? Quem a concebeu?

Foi Deus quem puniu? Por que puniu? Deus derrubou a Torre? Se não foi Deus, quem foi?

Por que ela ficou como o símbolo da maldição? Para onde foram seus construtores?

Os homens que fizeram as pirâmides do Egito, dos maias ou outras semelhantes têm algo a ver com os arquitetos da Torre de Babel?

Significado e época

A Torre de Babel paradigmática, de que nos fala o Gênesis e da qual procede a diversidade das línguas humanas, está envolvida em densas nuvens de interrogações.

Sua construção constituiu sem dúvida um dos momentos mais pecaminosos da história da humanidade, deixando um rastro de desgraças que sofremos até hoje.

“Babel” significa “confusão”.





Estima-se que sua construção se deu por volta do ano 2.420 a.C., quer dizer, aproximadamente 130 anos após o Dilúvio.

Portanto, bem antes do início da Grande Pirâmide do Egito (por volta de 2.170 a.C.), do nascimento de Abraão (1.976 a.C.) e da fundação do reino de Babilônia (por volta de 1.894 a.C.).

Usamos a escala do tempo que aponta a criação de Adão no ano aproximado de 4.000 a.C.

A Torre de Babel é, pois, o mais antigo monumento de grande importância do qual se tem noticia.


O Gênesis

A Bíblia Sagrada é o documento mais digno de Fé e a fonte histórica mais séria e pormenorizada.

A Torre foi construída por descendentes próximos de Noé, num tempo em que o reduzido número da humanidade de então vivia reunido e falava uma mesma língua, provavelmente a mesma de Adão e Noé.

Nemrod dirigiu a construcao da Torre de Babel,
pintura de Frans Francken II, Museo del Prado, Madri
Segundo a tradição, Nemrod, bisneto do patriarca Noé, foi o “rei” que comandou a construção da Torre:

“Nemrod foi o primeiro homem poderoso da terra (Gênesis 10,8), e “Ele estabeleceu o seu reino primeiramente em Babilônia, Arac, Acad e em Calane, na terra de Senaar”. (Gênesis, 10,10).

Supõe-se habitualmente que a Torre de Babel foi erguida no sul da Mesopotâmia. Ou seja, no atual Iraque, não longe da cidade de Babilônia, fundada muito depois; ou no máximo no sul do Irã. As ruínas de Babilônia se encontram sobre o rio Eufrates, 100 km a sul de Bagdá, capital do atual Iraque.

Há outras teorias sobre a localização, apoiadas em diversos raciocínios, também pobres de provas arqueológicas ou materiais definitivas.

Lemos no Gênesis:

1. Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.

2. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram.

“Façamos uma torre cujo cimo atinja os céus”,
quadro de Hendrick III van Cleve (1525-1589).
3. E disseram uns aos outros: “Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.” Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa.

4. Depois disseram: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.”

5. Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens.

6. “Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos.

7. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”

8. Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade.

9. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra. (Gênesis, 11, 1-9)

Foi por causa do orgulho dos homens que empreenderam a construção da famosa Torre que Deus lhes confundiu a linguagem, fazendo com que não se entendessem pelos diferentes idiomas que falavam.

Incapazes de se porem de acordo, os homens se dispersaram em todas as direções.

Outros testemunhos

Estela de Nabucodonosor II, The Schøyen Collection
Fora da Bíblia, o testemunho mais explícito encontra-se gravado numa placa babilônica de pedra escura conservada hoje na famosa The Schøyen Collection, (MS 2063) com sede em Oslo e Londres.

Nessa placa o rei de Babilônia Nabucodonosor II mandou escrever, no ano 570 a.C.:

“Um antigo rei construiu o Templo das Sete Luzes da Terra, mas ele não completou a sua cabeça.

“Desde um tempo remoto, as pessoas tinham-no abandonado, sem poderem expressar as suas palavras.

“Desde aquele tempo terremotos e relâmpagos tinham dispersado o seu barro secado pelo sol; os tijolos da cobertura tinham-se rachado, e a terra do interior tinha sido dispersada em montes”.

Desta maneira, o próprio rei Nabucodonosor II nos fornece uma ideia do que tinha restado da Torre de Babel.

Também nos informa que ele próprio ordenou recolher os últimos elementos aproveitáveis para construir uma nova Torre, não sobrando nada da torre originária.

A nova Torre de Babel foi provavelmente o zigurat (torre-templo) conhecido como Marduk ou Etemenanki, na cidade de Babilônia.

Para o imenso trabalho que exigiu, Nabucodonosor II escravizou os judeus e levou-os para Babilônia, destruindo Jerusalém e o Templo de Salomão.

A nova Torre de Babel referida na placa em pedra, tinha sete (ou oito) andares e 91 metros de altura. O historiador grego Heródoto a descreveu no ano 440 a. C.:

“A parede exterior da Babilônia é a principal defesa da cidade. Há, contudo, uma segunda parede interior. (...)

“O centro de cada divisão da cidade era ocupado por uma fortaleza. Numa ficava o palácio dos reis, (...) na outra estava o sagrado recinto de Belus, um cercado quadrado de 201 metros de cada lado, com portões de latão sólido, que também lá estavam no meu tempo.

Maqueta do zigurat de Etemenanki, de Nabucodonosor II
“No meio do recinto estava uma torre de alvenaria sólida, de 201 metros de comprimento e de largura, sobre a qual estava erguida uma segunda torre, e nessa uma terceira, e assim até oito.

“A ascensão até o topo está do lado de fora, por um caminho que rodeia todas as torres.

“Quando se está a meio do caminho, há um lugar para descansar e assentos, onde as pessoas podem sentar-se por algum tempo na sua ascensão até o topo.

“Na torre do topo há um templo espaçoso, e dentro do templo está um sofá de tamanho invulgar, ricamente adornado, com uma mesa dourada ao seu lado.

“Não há estátua de espécie alguma nesse sítio”.

Essa segunda Torre de Babel acabou ruindo. O rei Alexandre Magno (356 a.C.—323 a.C.), conquistador vindo da Macedônia, mandou recolher os restos para reconstruí-la, desmontando o que tinha sobrado.

Mas foi surpreendido pela morte na própria Babilônia. Nada foi concluído e o material foi dispersado.

Desta maneira, da Torre de Babel originária não sobraram nem os restos dos restos.

A segunda Torre de Babel feita por Nabucodonosor é por vezes confundida com a primeira. Registramos aqui estes dados históricos para efeitos de esclarecimento. Não voltaremos a falar dela, concentrando-nos apenas na primeira Torre.

Sobre ela, o historiador hebreu Flávio Josefo (37 ou 38 d.C. – 100 d.C.), em seu livro “Antiguidades Judaicas” (1.4.3) fornece a seguinte descrição:

Veja vídeo

“Foi Nemrod quem os excitou a praticar semelhante afronta na presença de Deus. Ele foi o neto de Ham, filho de Noé, homem corajoso e de grande força de mando.

“Nemrod persuadiu-os a não atribuir sua obra a Deus, como se fossem felizes somente por si próprios, e acreditarem que só seu esforço lhe daria a felicidade.

“Ele foi transformando seu governo numa tirania, procurando afastar os homens do temor de Deus, e mantê-los numa constante dependência de seu poder...

“Então a multidão estava sempre prestes a obedecer as ordens de Nemrod e julgar amostra de covardia se submeter a Deus.

“Eles construíram uma torre, não poupando nenhum esforço e em nada sendo negligentes no trabalho.

“E por causa das muitíssimas mãos empregadas, a torre subiu muito rapidamente, mais rápido do que se podia esperar.

“Sua espessura era tão grande e estava tão solidamente construída, que sua grande altura parecia, de qualquer ponto de vista, ser menor do que realmente era.

“Foi feita de tijolos cozidos cimentados com uma argamassa feita de betume que não permitia filtrações de água.

O desentendimento tomou conta dos homens.
Quadro de Lodewyk Toeput (1550-1605)
“Quando Deus viu que agiam com tanta maldade Ele decidiu não exterminá-los totalmente. E, posto que não tinham progredido em sabedoria após a destruição dos pecadores que os precederam [no Dilúvio]; então Ele gerou um tumulto entre eles fazendo que falassem línguas diferentes, e tornando-os incapazes de se entenderem um com o outro.

“O local onde construíram a torre hoje é chamado Babilônia por causa da confusão das línguas, sendo que antes se compreendiam facilmente.

“Pela palavra Babel, os hebreus entendem confusão...”

Tanto pelo que ensina a Bíblia quanto pelo que explica o historiador Flávio Josefo, vemos que a causa da punição foi o orgulho contido num sonho laico de grandeza completamente humana.

Movidos por ele os homens da Torre de Babel tencionaram erigir uma obra “cujo cimo atinja os céus” para assim tornarem “célebre o nosso nome” (Gen, 11, 4)




continua no próximo post: Torre de Babel: as lendas pagãs, a ciência moderna e a Babel do Anticristo





segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Os achados no “cárcere de São Pedro” (2)

Altar de São Pedro e São Paulo após restauro de 2010
Luis Dufaur
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Entre os mistérios que ficam a serem esclarecidos, um é a conexão entre o cárcere e a sinistra Scalae Gemoniae.

Isto é, a escadaria que saindo do Foro era percorrida pelos condenados a morte. O nome vem do verbo “gemer” = a escadaria dos gemidos.

Naquela escadaria também eram expostos os cadáveres dos justiçados e que depois eram jogados no rio Tibre.

O sinistro cárcere está composto por dois andares de desenho vagamente circular, um sobre o outro.

Prisão de São Pedro após restauro 2010
O superior, ou “Carcere Mamertino” propriamente dito, foi cavado pelo quarto rei de Roma Anco Marcio (640-616 a.C.).

O andar inferior, dito Tullianum, teria sido feito por Servio Tullio, sexto rei de Roma (578-534 a.C.).

Ali se encontra a fonte de São Pedro.

Os trabalhos arqueológicos confirmaram se tratar de um verdadeiro manancial que não está ligado a conduto nenhum.

Segundo a Dra. Patrizia Fortini que dirige os trabalhos de restauração empreendidos a partir de 1985, segundo noticiou o jornal italiano La Repubblica, a “fonte está ativa até hoje e somente com bombas consegue-se impedir que alague todo o ambiente”, acrescentou.

Afresco recuperado: Cristo apoia sua mão
no ombro de São Pedro enquanto abençoa
Também no andar inferior foram exumados restos de sacrifícios pagãos dos séculos VI a III a. C., provavelmente oferecidos pelos insignes prisioneiros a seus falsos deuses que, aliás, não os tiraram da desgraça.

Esse andar inferior foi cárcere até que no ano 314 o papa São Silvestre I (270-335) o transformou em local de culto com o título de San Pietro in Carcere.

Por sinal, San Silvestre foi o primeiro sucessor de São Pedro a cingir a tiara, símbolo também da realeza do Papa sobre a cidade de Roma e dos Estados Pontifícios.

Entre os afrescos agora desvendados figura o de Cristo apoiando sua mão esquerda sobre o ombro de São Pedro enquanto este com expressão sorridente levanta a mão direita para abençoar (foto).

A imagem do Príncipe dos Apóstolos que sorri triunfante sobre a brutalidade pagã jamais tinha sido vista em outros locais.

A pintura também transparece o comprazimento de Cristo transmitindo seus poderes a Pedro e seus sucessores.

A barba de São Pedro é representada como espuma branca e suas vestimentas exibem cor ocre por uma degradação da cor azul original.

Afresco recuperado apresenta muros de Roma medieval
Também pode se perceber netamente uma coroa, parte de um afresco da coroação de Nossa Senhora.

Um grande manto vermelho e uma pequena mão fazem pensar na “Madonna della Misericordia”, testemunho da devoção a Nossa Senhora nos tempos medievais.

Em outras cenas, malgrado o estrago irreparável do tempo, podem se distinguir torres e muralhas da Roma medieval, inclusive da praça do Campidoglio, provavelmente feitas entre os anos 1100 e 1300.

O fragmento mais antigo é do século VIII-IX, está no “Tullianum”, e representa a mão de Deus Pai sobre um retângulo branco.

A mão de Deus que conduziu São Pedro e seus sucessores à vitória sobre a Roma pagã é a mesma mão que guia a marcha invicta da Igreja contra todos seus adversários até a consumação dos séculos.



Video: O cárcere de São Pedro em Roma