segunda-feira, 24 de maio de 2021

Magdala, a cidade de Santa Maria Madalena
onde Jesus pregou

Funcionário limpa mosaicos ornamentados no sítio arqueológico de Magdala, Israel
Funcionário limpa mosaicos ornamentados no sítio arqueológico de Magdala, Israel
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Há sete anos uma tentativa de construir um hotel para peregrinos na Galileia acabou desencavando as ruínas da cidade natal de Santa Maria Madalena e uma antiga sinagoga onde Nosso Senhor Jesus Cristo pode muito bem ter pregado, segundo noticiou na época “The New York Times”.

O padre Juan Solana, diretor do Instituto Centro Pontifício Notre Dame de Jerusalém, quis construir uma instalação para romeiros no lugar onde se ouviu a maior parte da pregação divina e se viu a maioria dos milagres de Jesus, segundo os Evangelhos.

Em 2009 um velho resort foi demolido, e quando se cavou a terra para colocar os alicerces, apareceram restos da cidade. Do ponto de vista arqueológico e histórico, a descoberta é relevante, pois não se conhecia ao certo o posicionamento de Magdala, (ou Migdal). 

Somente os Evangelhos nos falam dessa cidade. Ela tinha deixado de existir e não faltou quem usasse a aparente contradição para impugnar a veracidade histórica da inspirada narração dos evangelistas.

A contradição também servia para alimentar a abstrusa afirmação de que Jesus e os Evangelhos, e também toda a Bíblia, não são históricos.

Tratar-se-ia, segundo esta teoria bizarra e anticristã, de mitos concebidos pelas primeiras comunidades cristãs para descrever suas experiências comunitárias. Um perfeito absurdo histórico, mas houve teólogos extraviados que deram forma sisuda a essa fantasia que mina as bases do cristianismo.

As autoridades da Igreja Católica e os arqueólogos enviados pela Autoridade de Antiguidades de Israel, a maior do país na matéria, não imaginavam encontrar nada de significativo no local.

Mas, a menos de meio metro abaixo da superfície, apareceu um banco de pedra que fez parte de uma sinagoga no século I.

Piso ornamentado no sítio arqueológico de Magdala, Israel, onde porto e sinagoga foram encontrados
Piso ornamentado no sítio arqueológico de Magdala, Israel, onde porto e sinagoga foram encontrados
Sabia-se que na região existiram sete sinagogas no período do Segundo Templo, mas nunca se encontrou nenhuma na Galileia.

Entre as ruínas, foi recuperada uma moeda datada no ano 29. Quer dizer, do tempo em que Jesus estava vivo e quiçá nem tinha começado sua vida pública. Para os especialistas, ficou claro que o local era a Magdala do Evangelho que estava perdida para a arqueologia.

Desde a primeira exumação de restos em 2009 até o presente, a escavação trouxe à luz um mercado; uma área presumivelmente destinada a salgar e secar peixes; uma casa grande ou edifício público com mosaicos, afrescos e três banhos rituais; uma colônia de pescadores e parte de um porto do século I.

9. Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. (São Marcos 16, 9

A descoberta fez mudar o projeto. Mas o centro já está concluído e tem vista para o porto e o mar da Galileia, onde aconteceram fatos narrados pelos evangelistas.

Na sinagoga foi encontrado um bloco de pedra com entalhes representando colunas e arcos, uma menorá (candelabro ritual) de sete braços e carruagens de fogo. Provavelmente foi usada como atril para ler a Torá, o livro sagrado judaico.

A pedra parece ser uma miniatura do Segundo Templo de Jerusalém, destruído pelos romanos no ano 70 e nunca mais reconstruído. O incêndio e arrasamento do Templo importou no fim do sacrifício hebraico, que cessou desde aquela data.

Esse sacrifício cruento foi substituído pelo sacrifício incruento operado na Missa instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia.

Mesa de pedra usada como atril para ler a Torá, o livro sagrado judaico, representa o Templo
Mesa de pedra usada como atril para ler a Torá, o livro sagrado judaico, representa o Templo

18. Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.

19. E disse-lhes: Vinde após mim e vos farei pescadores de homens.

20. Na mesma hora abandonaram suas redes e o seguiram.

21. Passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam com seu pai Zebedeu consertando as redes. Chamou-os,

22. e eles abandonaram a barca e seu pai e o seguiram.

23. Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

24. Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos. (São Mateus 4:23)

Magdala fica a oito quilômetros de Cafarnaum, onde Jesus pregou intensamente.

A arqueóloga chefe dos trabalhos, Dina Gorni-Avshalom, da Israel Antiquities Authority, considera que há “indícios circunstanciais” suficientes para se supor que Jesus pisou essa sinagoga.

A capela do resort para peregrinos está consagrada a Santa Maria Madalena, a pecadora arrependida que é símbolo da Redenção da humanidade imersa nas trevas em virtude do pecado original.

Ela aparece num grande mosaico no momento em que Nosso Senhor expulsa de seu corpo sete demônios, tendo como fundo a antiga cidade de Magdala.

Santa Maria Madalena unge os pés de Jesus.
Dieric Bouts, 1440, Sttatliche Museem Berlim.
Esta descoberta da ciência corrobora em nós a Fé. E nos convida a meditar nos dramas que se deram no tempo em que as ruínas agora descobertas não eram ruínas, mas a movimentada cidade de Magdala.

Por exemplo, considerar a vida de Maria Madalena, cujo nome deriva dessa cidade. Ela morava lá com Lázaro, de quem era irmã.

Lázaro, segundo as tradições do Oriente, tinha uma categoria social não política, de príncipe. Portanto, suas irmãs Marta e Maria eram pessoas de alta categoria.

Infelizmente, Maria Madalena tinha se tornado uma pecadora pública. Mas, uma vez arrependida, passou a praticar a contemplação e a penitência com suma seriedade e profundidade.

Maria viveu exclusivamente voltada para a contemplação, e por isso Nosso Senhor disse dela que escolheu a parte melhor: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.(S. Lucas - 10, 41-42)

Podemos refletir sobre essas pessoas, a vida que levavam e como foram se transformando em função de Nosso Senhor. Todo esse drama aconteceu entre essas ruínas da Galileia.

No fim da vida pública de Cristo, em Jerusalém, quando Santa Maria Madalena quebrou o vidro de perfume e começou a ungir os pés de Nosso Senhor, Judas criticou-a. Mas Jesus Nosso Senhor justificou a atitude dela.

Judas representou o contrário do arrependimento, e morreu no desespero, enforcando-se numa figueira. Santa Maria Madalena e Judas seguiram rumos diametralmente opostos.

Ela esteve ao pé da Cruz, enquanto Judas foi o apóstolo amaldiçoado. Santa Maria Madalena foi a primeira a presenciar a Ressurreição, enquanto ele se enforcou.

São antíteses tremendas entre um e outro. Pelo lado dela, o arrependimento, a pura contemplação e o desapego dos bens do mundo. Pelo lado dele, impenitência, desespero, apego aos bens do mundo, roubo, traição e, no fim, suicídio.

Santa Maria Madalena, com a Cruz da penitência e o vaso do bálsamo preciosíssimo. Sevilha, Espanha.
Santa Maria Madalena, com a Cruz da penitência e o vaso do bálsamo preciosíssimo. Sevilha, Espanha.
Judas também esteve em Magdala, ouviu as pregações divinas, assistiu aos milagres. Tudo isso aconteceu entre essas ruínas agora postas à luz do sol.

Houve um momento em que Judas esteve em estado de graça e Maria Madalena, em estado de pecado mortal. Ela saiu do pecado para subir até onde subiu.

E ele desceu da condição de apóstolo, para a qual havia sido convidado por Nosso Senhor, e precipitou-se para vender o seu divino Benfeitor.

Quanto pode uma alma que está no lodo subir, e quanto pode uma alma chamada ao que há de melhor cair!

As ruínas de Magdala nos ajudam a compor o cenário de tempo e lugar onde esse imenso drama em torno do Divino Redentor aconteceu e suas lições continuam sempre válidas.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

O labirinto das catedrais, um mistério decifrado.
Verdadeiros simbolismos e ensinamentos

Labirinto da catedral de Amiens, França
Labirinto da catedral de Amiens, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Na catedral de Chartres, na França, existe o mais renomado labirinto do mundo. Ele serviu de inspiração e modelo a muitos outros, ainda existentes em catedrais da maior respeitabilidade no orbe católico.

Sabe-se que muitos desses labirintos foram destruídos em séculos de iluminismo ou anticatolicismo.

Mas, o que faz um labirinto gravado no chão? Qual é a função desse desenho matemático no recinto sagrado de uma catedral?

O termo ‘labirinto’ designa um percurso sinuoso, com ou sem cruzamentos, becos-sem-saída e falsas pistas, destinado a perder ou enganar o intruso que nele penetra.

Quem visita Chartres pode encontrar pessoas executando um estranho ritual. Estão percorrendo esse labirinto com ares de procurar “energias” provenientes de obscuras forças telúricas.

Em poucas palavras, trata-se de mais uma superstição Nova Era, de tipo neopagão, que nada tem a ver com o catolicismo.Na catedral de Chartres ou nas suas lojas de souvenirs, ninguém soube explicar-me direito a razão de ser do labirinto.

“Chartres, o labirinto decifrado”, de John e Odette Ketley-Laporte
Adicionar legenda

Se eu fazia menção à ridícula crendice Nova Era, os lojistas sorriam. 

Para eles era mais uma tolice em que guias inescrupulosos fazem cair turistas americanos ávidos de extravagâncias.

Numa livraria erudita, um estudante que preparava seu mestrado apontou-me o livro que explicaria o que para mim era um enigma.

E, no essencial, o fez: “Chartres: le labyrinthe déchiffré” (“Chartres, o labirinto decifrado”), de John e Odette Ketley-Laporte, Éditions Garnier, 1997.

De volta a casa pude lê-lo pausadamente. Eis algumas das interessantes informações que nos devolvem o autêntico sentido cristão – aliás, muito esquecido – do labirinto das catedrais.

Os labirintos da Antiguidade

Os labirintos dos quais mais se fala são o das pirâmides do Egito e o da ilha de Creta, na área de cultura helênica.

Em ambos os casos tudo indica que não se tratou de construções materiais, mas sobre tudo mitológicas.

Atribui-se ao faraó Amenemhat III (1860 a.C. – 1814 a.C) a construção de um palácio monumental na depressão de Faium, perto do lago Meris (atualmente Birket-Qarun). O palácio teria tido quase três mil salas, ligadas por um complexo sistema de corredores em vários níveis. Esse prédio foi chamado pelos gregos de Labirinto. Mas nada restou dele.

A lenda do labirinto, entretanto, sobreviveu ao palácio. Segundo ela, no prédio morava o deus Anúbis, divindade com cabeça de cão, que por meio de um fio conduzia até o deus supremo as almas dos faraós falecidos, superando os perigos do abismo eterno.

Segundo Heródoto, a lenda do palácio de Amenemhat III teria inspirado o arquiteto Dédalo – encarregado por Minos, rei de Creta – a construir uma prisão para o monstro Minotauro.

A lenda do Labirinto de Dédalo foi a que mais marcou o Ocidente. Houve intensos esforços para localizar suas ruínas ou, pelo menos, o local onde poderia ter estado.

“Nenhuma das numerosas escavações efetuadas nos sítios arqueológicos da ilha de Creta revelou qualquer indício sério sobre a verdadeira natureza, nem mesmo da localização do famoso Labirinto” – escrevem John e Odette Ketley-Laporte.

Busto de Amenemhat III, (1860 aC – 1814 aC), que constriuiu o
mitico palácio chamado pelos gregos de Labirinto.
Busto achado na área do Panteon, Roma
A lenda grega é uma adaptação da mitologia egípcia: Ariadne, filha do rei de Creta, deu ao herói Teseu, como prova de amor, a ponta de um novelo de lã que ela desenrolava.

Teseu nunca devia afrouxar para não se perder no Labirinto e atingir por fim a salvação ou paz eterna.

No meio do Labirinto, Teseu encontrou o demoníaco Minotauro, acabou vencendo-o e por meio do fio atingiu a salvação.

A Antiguidade deixou parcos desenhos de um Labirinto.

O Labirinto no Cristianismo

É no cristianismo que o labirinto adquire toda a sua dimensão simbólica, religiosa e moral.

O primeiro labirinto cristão recuperado é o da Basílica de São Reparato, hoje em ruínas, construída em estilo romano no ano 324, em El-Asnam (Argélia).

Este labirinto é um mosaico, a exemplo de todo o chão da igreja. Suas dimensões – 2,40 metros por 3 metros – mostram que ele não foi feito para ser percorrido a pé, mas acompanhado com o olhar.

Cada pedrinha do mosaico tem uma letra, devendo o fiel encontrar no meio delas a frase Sancta Mater Ecclesia (Santa Mãe Igreja). O ensinamento é que a Igreja é o caminho certo em meio à confusão desta Terra.

No século VI em diante, aparecem labirintos de maior beleza e perfeição nas igrejas do norte da Itália, como em San Vitale (Ravena).

Mas foi nas grandes catedrais medievais francesas de Poitiers, Amiens, Arras, Auxerre, Reims, Bayeux, Chartres Mirepoix, Saint-Omer, Saint-Quentin e Toulouse, entre outras, que o labirinto atingiu sua plenitude.

O labirinto acabado: na catedral de Chartres

O labirinto mais completo é sem dúvida o da catedral de Chartres, construído na sua nave central por volta do ano 1200 e medindo cerca de 13 metros de diâmetro.

Ele é redondo e suas pedras negras marcam o percurso – em pedras brancas – a ser feito a pé ou de joelhos. A borda é finamente trabalhada, assim como o centro, rodeado por um desenho florido.

Labirinto da catedral de Chartes é o mais perfeito
Labirinto da catedral de Chartes é o mais perfeito
A renda de pedra que rodeia o labirinto estabelece uma fronteira entre o sagrado e o profano.

O labirinto de Chartres associa a espiritualidade cisterciense ao desejo de fazer da catedral um modelo de perfeição acabada, espelho da Ordem do Universo.

No centro do labirinto havia uma extraordinária placa de cobre. Não sabemos que imagens estavam nela representadas, pois as testemunhas pós-medievais já as viram muito apagadas.

A impiedade sacrílega da Revolução Francesa arrancou essa placa com o pretexto de fundi-la e fazer canhões para a República.

No dia da festa da Assunção de Nossa Senhora (no Calendário Juliano, ainda em uso na Idade Média), um raio de sol atravessava o vitral central da fachada e projetava a imagem de Nossa Senhora sobre o cobre, produzindo um efeito luminoso colorido de esplendor incomparável.

Esse centro é chamado de Paraíso, ou também de Jerusalém, aplicando-se o termo à Jerusalém celeste e à Jerusalém pela qual os Cruzados combatiam.

Na catedral de Reims, o percurso dentro do Labirinto recebia o nome de “Caminho de Jerusalém” e era percorrido recitando-se as orações contidas num livrinho de devoção especial.

Quem ingressa no Labirinto deve caminhar através de onze anéis até chegar ao Paraíso. O número 11 é simbólico e ensina que é um caminho a ser percorrido pelo pecador.

“O número 11 – escreve R. Allendy – é o símbolo da luta interior, da dissonância, do desvio. Santo Agostinho diz que é o número da transgressão da lei, porque supera em um o número dez que é o número do Decálogo. (...) ‘É chamado – diz Agrippa – o número do pecado e dos penitentes, motivo pelo qual foi ordenado fazer onze sacos de silício no Tabernáculo para servirem de vestimenta aos penitentes e para aqueles que choravam seus pecados’” (René Allendy, Le symbolisme des nombres, Éditions traditionnelles, 1990)

Acrescentam os autores: “Como a noção de penitência é indissociável da ideia de pecado, pensamos imediatamente nos fiéis que, para fazer penitência na Idade Média, percorriam o Labirinto de joelhos”.

Nossa Senhora desfaz as encrucilhadas insolúveis
do labirinto da vida e guia o fiel
Esses onze anéis sinalizam o conjunto das peripécias que o homem concebido no pecado deve atravessar no decurso da vida.

Ele encontra obstáculos, voltas e desvios, retrocessos inesperados que o obrigam a começar tudo de novo.

Sua vida está cheia dessas idas e vindas, das voltas que não se entendem, das aparentes aniquilações dos trabalhos feitos, da necessidade de reiniciar uma e outra vez.

Lição moral do Labirinto

Essas situações da vida real, nas quais o caminho parece perdido e o trabalho de uma vida desperdiçado, em que não se vê mais o ponto de chegada, também são momentos de tentação.

Tentação de desânimo, de desesperança, de largar os braços, de renunciar ao caminho, de desistir da salvação.

Esses são os momentos do anjo da perdição – representado pelo demoníaco Minotauro da lenda de Creta – que figura de modo pagão o demônio do desespero que assalta os homens no meio de alguma curva da vida.

Porém, no Labirinto de Chartres, está representado também o novelo misterioso que ajuda o pecador a não se perder e a vencer a tentação: a graça divina.

Com um pormenorizado desenvolvimento matemático-simbólico, John e Odette Ketley-Laporte mostram que o centro do Labirinto representa a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, Àquele que é o criador da graça e que a dispensa a todos os que perseveram no labirinto da vida, impedindo que se percam ou que caiam nas armadilhas e nos embustes que enchem a passagem do homem pela Terra.

Montagem fotográfica reconstitui o momento em que
a imagem de Nossa Senhora é projetada no centro
do Labirinto de Chartres, na festa da Assunção
A condição para o fiel é uma só: nunca largar o fio do novelo, inclusive no momento em que tudo parece rumar no contra-senso ou para trás.

Nossa Senhora no centro do Labirinto

Mas há mais. A catedral de Chartres é dedicada inteiramente à Mãe de Deus. É Ela quem administra o novelo do Filho e nos dá o fio, tornando possível sermos fieis e chegarmos a seu Divino Filho, após atravessar todas as vicissitudes desta vida.

Isso está fortemente simbolizado em Chartres.

Por exemplo, o percurso do Labirinto ou ‘Caminho de Jerusalém’ está composto com 273 pedras.

Elas somam os dias dos nove meses da gestação, porque Nossa Senhora vai gestando para o Céu a alma do pecador que percorre com o coração contrito e humilhado o caminho rumo à Pátria celeste, guiado por Ela por meio do fio da graça de seu Filho.

A última pedra do ‘Caminho de Jerusalém’ tem um tamanho diverso de todas as outras e a proporção do corpo humano.

Ela representa simbolicamente o católico que após completar o caminho prenhe de inverossímeis, chega à porta do ‘Paraíso’, prosterna-se agradecido e implora à Virgem que o apresente a seu Divino Filho.

Nas como que intérminas idas e vindas, o pecador que não perde de vista Nossa Senhora talvez julgue percorrer um caminho caótico. Porém os autores do livro mostram como, na realidade, esssas indas e vindas pelo Labirinto desenham duas vezes o monograma marial – a letra M – de modo surpreendente.

O Labirinto de Chartres é bem uma “via de Maria”, porque nele Nossa Senhora nos faz chegar a salvação eterna por sua intercessão, e é por causa d’Ela que o fiel triunfa sobre as vicissitudes da vida mortal.

Essa última pedra tem um outro simbolismo acrescido.

Dois dias antes da festa da Assunção, o raio de sol de que falamos acima projeta a imagem de Nossa Senhora sobre essa pedra. É a data presumida da Dormição de Maria: o passo prévio à Assunção.

Dois dias depois, na festa da Assunção, a imagem era projetada na esplêndida placa de cobre.

Triunfo final sobre o Labirinto

Cristo Rei triunfou sobre o Labirinto:
vitral na igreja de Sao Miguel, Cumnor, Inglaterra
A sabedoria dos construtores das catedrais surpreende a estreiteza dos raciocínios modernos.

E o Labirinto de Chartres nos fornece um maravilhoso exemplo:

No domingo de Páscoa, após as celebrações litúrgicas, os cônegos da catedral iam fazer um inocente jogo de bola exatamente acima do Labirinto, enquanto cantavam a sequência Victimae Pascali Laudes (À Vítima Pascoal oferecemos um sacrifício de louvor).

Como quem diz, com as palavras e os gestos, que Cristo venceu todas as vicissitudes do Labirinto de sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição.

O Labirinto foi vencido e Nosso Senhor está num trono no mais alto do Céu, recebendo o eterno louvor de seus anjos e de seus santos.

É o que cantará um dia, mutatis mutandis, a alma fiel que percorreu o labirinto de sua vida com os olhos postos em Nossa Senhora.

No fim da existência, as sinuosidades do Labirinto terão ficado definitivamente para trás, e a alma que perseverou ascenderá ao Céu.

Ali repousará por toda a eternidade, contemplando a beleza incomensurável de Nossa Senhora e a glória infinita de Deus.

Eis alguns significados e simbolismos do Labirinto